Seguidores google+

sexta-feira, 13 de março de 2020

OS INTERESTADUAIS DE 1906 A 1910 10º JOGO

OS INTERESTADUAIS DE 1906 – 0

10º JOGO

10º jogo — Palmeiras x Botafogo. Data: 15 de agosto de 1910 - Local; S. Paulo. - Resultado: Botafogo 7x2 

Eis como "Jornal do Comércio" da tarde descreveu este celebre encontro, uma das maiores façanhas do Glorioso no inesquecivel ano de 1910, esmagando, em S. Paulo, o formidável conjunto campeão de 9 e 10: 

Conforme noticiamos, partiu no domingo, à noite para S. Paulo, o "team" do Botafogo para se bater naquela capital com o provavel campeão paulista deste ano, — a A.A. das Palmeiras. 

Os rapazes do Botafogo, como verdadeiros “sportmen", fizeram no domingo um "tour de force", pois, diversos deles, tendo tomado parte nas regatas, para tomarem o trem das 6 horas, foi necessário tomar automoveis e com grande velocidade, chegarem antes da partida do mesmo trem e isto fizeram ainda com  o uniforme de regatas, pois tinham corrido no último pareo. Esperados na estação da Luz, em S. Paulo, por grande número de sócios do Palmeiras e de outros clubes, e também por muitos rapazes daqui, que foram especialmente à capital paulista para ter o prazer de assistir a importante match, eles seguiram em bondes especiais para o Grande Hotel, de onde, após o almoço, sairam a passeio pelos diversos lugares pitorescos da cidade, indo até a checara da Floresta visitar a sede do Palmeiras. A anciedade pelo resultado deste importante match era enorme, não só nesta capital como em S. Paulo, e diversos rapazes do team do Botafogo nas garantiram que iriam jogar com o maior cuidado e combinação, pois queriam de lá voltar com mais uma vitória. Conhecemos a linha de forwards do Botafogo e com os elementos de que dispãe de agilidade, combinação, ligeireza e resistência, é preciso serem "Corinthians" para parar as suas investidas, salvo raras exceções, quando há alguma anomalia ou indisposição na linha, o que não raras vezes acontece, mas quando quer jogar o jogo coletivo e seguir o lema de "todos por um e um por todos", ela torna-se fortissimo. 

Na linha de "halves", todos conhecem a resistência de Lulú, o jogador limpo, e Rolando, o "cavador". Na linha de "backs" é sabido a calma de Dinorah, bem como o jogo de Pullen. Pena é que não tenha jogado o seu goal-keeper O. Baena que, com a sua proverbial agilidade e suas pegas seguras, muito havia de fazer pelo seu team; não desmerecendo de Coggin, que tem contra si, no lugar de goal-keeper, ser um pouco nervoso, não deixando, por isso, de quase sempre jogar bem. Assim, o team do Botafogo é composto de bons jogadores e ia se bater com um competidor digno dele, pela sua merecida fama de também ser composto do que há de melhor como jogadores de foot-ball na capital paulista. Às 3 horas, já o Velodromo estava completamente cheio da "elite" social paulista, oficiosa pelo inicio do primeiro match interestadual deste ano, entre dois clubs amigos, mais de reconhecido valor. 

Antes de iniciar a descrição do jogo, convém dizer que não contavamos com uma vitoria tão estrondosa por parte do Botafogo, porque não só diversos jogadores do team tinham corrido nas regatas (e nós sabemos o que é puxar no "pinho" 3.000 metros), como também porque iam jogar depois de uma viagem estafante, viagem que quasi sempre se faz sem dormir, porque a reunião de diversos amigos intimos em um só vagão, em viagem de verdadeira troça amigável, quase sempre resulta em brincadeira constante daqui até lá; e assim repetimos: si tinhamos confiança nos rapazes do Botafogo, ela era um pouco baqueada não só pela razão que já alegamos como também porque iam jogar dois elementos do segundo team. Em todo o caso, tinhamos confiança na vitória mas não de tal tamanho. É verdade que, ultimamente o Botafogo tem desenvolvido um jogo extraordinário, pela combinação, filha da disciplina que presentemente tem sido mantida no team do Botafogo. 

O dia de segunda-feira, como que querendo colaborar para dar maior realce à visita dos fluminenses aos seus amigos paulistas, esteve lindo, esplendoroso e primaveril.

 Os rapazes do Botafogo chegaram à capital paulista às 5,30 da manhã, sendo recebidos festivamente pelos rapazes do Palmeiras, com a lhaneza e regosijo de que só possuem o segredo. 

Pouco depois de três horas, o Sr. H. Frieze, do Sport Club Germania, deu entrada no field, seguido dos dois teams, que estavam assim constituídos: 

Palmeiras — O Penteado; J. Salerno e Urbano Moraes; Andrew, T. Callet e O. Egydio; Jarbas, Fritz, E, Mendes, M. Egydio e Deado-o Campos. 

Botafogo — Coggin; Pullen e Dinorah; J. Couto, Lulu e Rolando; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro. 

Coube o "kick-off" ao team do Botafogo Um movimento de sensação geral, um magnetismo empolgante correu por todas as arquibancadas do Velodromo, onde regorgitava tudo quando o elemento feminino paulista tem de mais "chic" e mais belo. E movimento de espectativa não correu só as arquibancadas; ele fez a sua volta em todo campo que se achava completamente cheio nos fazendo lembrar as enchentes dos matchs dos "South Africans", dos Argentinos, e o próprio Botafogo, no match em que se disputava a "Taça Root", de que é detentor este clube. 

Notava-se, do lado do Palmeiras a quase certeza na vitória, naturalmente por deduções visto ter o Botafogo empatado com team que o Palmeiras infligiu uma "sova” de 5x2 e, demais, a vontade da desforra derrota do ano passado. 

Do lado do Botafogo notavam-se a serenidade, a calma, a intrepidez e a confiança em si próprio. Durante os cinco primeiros minutos de jogo, nenhum dos teams se pronunciou abertamente, querendo conhecer o seu lodo fraco. Depois desta indecisão natural, os cariocas iniciaram o seu ataque desenvolvendo então a sua admirável técnica a sua irrestivel combinação, aqui conhecida por "mata backs". Décio, center-forward do Botafogo, abre o score para o seu team vasando o goal do Palmeiras com um shot rasteiro a 12 jardas do goal. 

O Palmeiras, desejoso de não ser suplantado, dá um forte ataque ao campo do Botafogo, obrigando um jogador deste clube cometer um corner, que bem tirado por Eurico Mendes, é sabiamente aproveitado por Andrew que, com uma cabeçada, faz a bola se aninhar no goal do Botafogo. 

Achavam-se os teams em igualdade de condições. Diante deste feito, os cariocas resolveram abertamente a atacar, o que fez com calma, combinação e impeto, que desnortearam completamente a tão boa e firme defesa do Palmeiras. Este ataque mais se acentuava pela sua delicadeza e pela ausencia completa do jogo pessoal. 

O Botafogo, com este ataque harmônico e metodicamente feito, domina completamente a brilhante equipe do Palmeiras. A assistencia, que tinha aplaudido com entusiasmo o feito de Andrew, aplaudia agora os belos passes, as lindas combinações e a magistral tática desenvolvida pelas linhas do Botafogo. Rendia homenagem e fazia justiça ao jogo produtivo de passes e à disciplina que reinava. Minutos depois de um passe de Lulu para Lauro, este centra, escorando-o com um "drop-kick". Mimi, marcando o segundo goal para cariocas, aplaudido com delírio. Dada novamente a saída, o Botafogo continua o ataque, fazendo Abelardo, mais um goal, com  belo shoot. Mais alguns minutos de jogo ainda o primeiro half-time com o seguinte resultado: Botafogo, 3 goals. Palmeiras, 1 goal.

No intervalo do match, a sempre gentil diretoria do Palmeiras, ofereceu ao team do Botafoho uma linda corbeille de flores naturais de onde pendiam fitas com as cores preta e branca, com a dedicatória: — "Ao valoroso Botafogo, oferece a A. A. das Palmeiras" Em nome do Botafogo, agradeceu a oferta, Emanuel Sodré. Foram tiradas diversas fotografias nesta ocasião. Terminados os minutos de descanso, voltaram novamente os rapazes para o campo, afim de ser recomeçado a luta. Neste half, prosseguiu a supremacia do Botafogo; os ataques da sua linha de forwards sucediam-se com uma admirável combinação, entusiasmando cada vez mais a numerosa assistência. 

Após quatro minutos de jogo, Abelardo, sentindo-se solto, fez um belo "rusch" e consegue marcar o quarto goal para o Botafogo. Volta a bola ao centro e os paulistas perdem-na logo no primeiro pontapé. A seguir o team do Botafogo desenvolve jogo estupendo, principalmente de passes magistrais, feito com a cabeça; assim é vimos a bola sair da cabeça de Couto para a de Emanuel, deste para a de Abelardo, deste para a do Décio, que a envia da mesma forma a Mimi e ainda este a devolve do mesmo modo, terminando esta série de passes com a cabeça no Décio, que aproveita a ocasião e shoota, marcando mais um goal para Botafogo. 

Continuando o jogo, Abelardo aproveita um bom passe de Mimi e marca, a 20 jardas, mais um goal. Logo depois, Décio marca mais um goal, magistralmente feito. Estes goals foram pelo público assistente aplaudidos com verdadeiro entusiasmo. Os rapazes do Palmeiras, diante da superioridade esmagadora do Botafogo, que neste half-time conservou sempre a bola no campo do Palmeiras, não desanimam, e, quando já todas as esperanças haviam fugido, Eurico consegue vasar o goal do Botafogo. Mais uns minutos de jogo, o referee dá um penalty contra o Botafogo que, tirado por Eurico Mendes, passa por cima da trave. E assim termina o match com a vitória do Botafogo por 7 goals a 2. 

Depois do match, quando os rapazes do Botafogo tomavam os "landaus" postos à disposição do team pela diretoria do Palmeiras e ao sairem do Velodromo (com que prazer isto registramos) foram delirantemente aplaudidos por toda a assistência que, propositalmente, fez alas para eles passarem pelo centro. 

Voltaram vencedores e mais amigos dos vencidos e gratíssimos aos paulistas. 

Sobre a renda do jogo, eis o que disse um jornal paulista: "Para se avaliar da importância de que se revestiu o primeiro match interestadual basta notar que a receita subiu a 3 contos de reis, o que por si só mostra o pleno renascimento do salutar sport inglês entre nós". 

NOTAS — Nosso quadro, nesse celebre jogo, atuou desfalcado de Carlos Lefévre que teve em seu lugar Juca Couto, o esplêndido half de nosso segundo quadro. 

- Provávelmente um dos que tomaram parte na regata referida na magnfica descrição que transcrevemos, foi Lulu Rocha que foi um grande remador do C. R. Botafogo (como já eram unidos os dois clubes), onde formou com Flavio Ramos, Alvaro Werneck e Mario Pereira da Cunho a celebre guarnição denominada dos "foot-ballers" fato interessantemente lembrado por Mario Filho em sua notavel obra "O negro no futebol brasileiro". 

— Vamos sair da rota que nos traçamos ao referirmo-nos a outra grande vitoria do Botafogo que acha-se indissoluvelmente ligada aos "7x2" contra o Palmeiras, pois que constituem as duas proezas maximas desse fantastico e lendário ano de 1910 que deixou o Botafogo cognominado pela voz anônima das multidões, o "Glorioso". 

Referimo-nos a que foi obtida  um  mês depois, em 25 de setembro dé 1910, em nosso querida e inesquecivel campo de Voluntários da Pátria, os "6x1", que garantindo-nos brilhantemente o campeonato, derrubaram a hegemonia do formidável quadro do Fluminense, dando outro interesse ao futebol carioca. 

A competição começou pelo jogo de segundos quadros que vencido pele Botafogo, por 1x0, garantiu-lhe mais um torneio, a reunir-se aos de 1906-7 e 9 já brilhantemente levantado. Paula e Silva, o hoje querido "Vovó" marcou lindamente o goal da vitoria, tendo sido este o quadro: Cesar, C. Viona e Dutra; J. Couto, Norman e Adhemaro; Nilo Rasteiro, Flavio, Carlos Hasche, P. e Silva e Mario Fontenelle. 

Sob intensa espectativa, seguiu-se o jogo principal, alinhando-se, ao apito do juiz A. H. Hasseil, os seguintes conjuntos: 

Botafogo — Coggin; Pullen e Dinorah; Rolando, Lulu e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Décio, Mimi e Lauro. 

Fluminense — Waterman; F. Frias e Paranhos; Nery e Mutz; Galo, Miliar, Oswaldo Gomes, Cox, Gilbert Hime e Borgerth.

No quadro tricolor figuravam dois ex-alvi-negros, Millar e Gilbert e três jovens que começavam suas brilhantes carreiras Nery, Gaio e Borgerth e que dariam mais tarde, as maiores glorias ao Flamengo. De início, jogando assombrosamente, o Botafogo demonstrou sua grande superioridade e o extraordinário Abelardo, o maior forward de seu tempo, vazou seguidamente por três vezes as redes tricolores, sob o delírio da multidão eletrizada. Na fase final, Lulu, em uma defesa infeliz, marca o único ponto tricolor, mas o Glorioso não se impressiona e obtem mais três formidáveis tentos, por intermédio, dois de Décio e um do querido Mimi, consumando assim sua formidável e inesquecível vitória. No domingo seguinte, 2 de outubro, esmagando o Haddock Lobo por 11 x0, goals de Rolando 4, Abelardo 3, Décio 2, Lulu e Dinorah, o Botafogo encerrava com chave de ouro, essa fantástica temporada de 1910 no qual, dirigido pela competência de Pedro Rocha, foi verdadeiramente o campeão brasileiro. 

— Pedro Martins da Rocha, irmão dos beneméritos Lulu e Carlito Rocha foi, realmente, um grande diretor de sports como, também, Joaquim Antonio de Souza Ribeiro, o presidente de 1910, foi um grande e dedicadíssimo dirigente. 

— Décio, o nosso saudoso campeão, entrevistado anos mais tarde, em 1927, por Ralph de Palma, para "O Imparcial", disse: "Minha apresentação oficial deu-se come center-forward do glorioso S. C. Americano, por cujo primeiro team joguei toda aquela temporada de 1909. No ano seguinte, transferi-me para o Botafogo F. C., do Rio. A falange alvi-negra contava com imensa simpatia em S. Paulo. Dinorah e Lefévre tinham ido daqui reforçar suas fileiras e eu os segui. Vestindo a jaqueta preta e branca apareci ao lado de Abelardo, Mimi e Rolando e combatendo com eles na linha fiz-me primeira vez campeão, e fui a seguir campeão, cinco anos a fio. Mas de todos os campeonatos, o de 1910 pelo Botafogo, é o único de que me orgulho. Conquistado numa época em que o Fluminense se arrogava os ares de "papão" da Metropolitana, ele por todos os demais que depois obtive. Tendo-se originado uma rivalidade aguda entre botafoguenses e fluminenses, foi o campeonato carioca de 1910 que fez explodir pela primeira vez no futebol nacional as lutas de torcidas: "É Botafogo? lasca... É Fluminense? queima..." E por causa dessas frases os gerais se incendiavom de fúria e celebres barreiras vinham abaixo às taponas... "Bo-to-Bo-ta-Bo-ta... fôôôgo... o Botafogo acabou mesmo botando fogo no Fluminense. E tele-ia queimado de novo em 1911 se não fôra o ter se afastado da Metropolitana

— O dia mais alegre de sua carreira: Aquele em que o Botafogo esmagou o Fluminense por 6 x 1, conquistando o campeonato de futebol. Isso foi no returno, naquele campinho do Largo dos Leões, já desaparecido, mas lembro-me como se fôsse hoje... 1910!   

- O lance que mais admira no futebol -- O arremate rápido e forte, encaixado com precisão! 

Décio Vicari sorria. Brilhava em seus olhos aquela chama de energia com que ele outrora assustava as defesas, na hora de desferir o seu famoso chute de bico. 

Respondeu, ainda, Décio às perguntas: "O clube de sua admiração? — Botafogo do Rio.

- O melhor jogador nacional? — Tres. Hugo, Rubens, Chico Netto Atualmente? — Friedenreich, ainda. Também gosto muito de Nilo. Os melhores estrangeiros que enfrentou?   Os uruguaios: Varella, Piendibene, Bertone. E dos rapazes do Rio? — Nery, Lulú Rocha, o inglês Welfore". 

                                                         Alceu Mendes de Oliveira Castro

Acervo particular Alceu de Oliveira Castro Jungsted

Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 82 de julho de 1949

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário