1906 A 1910 1º JOGO
OS INTERESTADUAIS DE 1906-1916
Passaremos a descrever, pela voz típica e tão interessante da imprensa da época, os jogos interestaduais em que se empenhou o Botafogo, desde a prehistória do futebol até 1916, contra os grandes clubes de São Paulo, isto é, o Paulistano, o S. Paulo Atlétic, o Internacional, o Germania, o A. A. das Palmeiras, o Mackenzie College e o Americano, grémios éstes que deram as maiores glórias ao futebol brasileiro, hoje, todos eles afastados das canchas, a maioria definitivamente extintos, o Paulistano, o Atlétic e o Germania praticando outros desportos.
Tais jogos, em número de vinte e quatro despertavam muito maior interesse, outrora, do que os dos torneios locais, enchendo colunas da imprensa, que mal se preocupava com os demais encontros, a não ser quando se tratava de um Botafogo x Fluminense, a luta máxima do nosso futebol naqueles longinquos tempos.
Descrições cheias de vida, com expressões e comentários próprios da época e que grifaremos, merecem ser transcritas em nosso Boletim, porque revivem as glórias de todos nossos primeiros cracks, verdadeiros símbolos do Botafogo como Flávio Ramos, Emanuel, Mirni e Lauro Sodré, Alvaro e Octavio Werneck, Rolando e Abelardo Delamare, Lulú e Carlito Rocha, Dinorah, Edgard Dutra, Villaça, Luiz Menezes e tantos outros, bem como a dos grandes primeiros cracks de S. Paulo: Tutú, Urbano, Irineu Malta, Rubens Salles, o célebre triângulo Hugo - Menezes e Itaborai - Friedenreich, Décio Viccari, também muito nosso.
Com notas elucidativas procuraremos esclarecer dúvidas e informar melhor. Assim, inicialmente lembraremos o que todos sabem, isto é, que o futebol desenvolveu-se primeiro e mais rapidamente em São Paulo do que no Rio, desde que Charles Miller trouxe duas bolas da Inglaterra, em 1894 e implantou-o no São Paulo Athletic Club, grêmio de ingleses, como as nossos Rio Cricket e Paysandú. Em 1898 fundava-se o Mackenzie College, clube dos alunos do colégio, em 1899, o S. C. internacional, primeiro grémio verdadeiramente nacional e logo após, o S. C. Germânia, da colonia alemã. Em dezembro de 1900 fundava-se glorioso C. A. Paulistano e em 1902 a querida A. A. das Palmeiras que fortaleceu-se quando em 1905 recebeu os dissidentes do Paulistano. O celebre S. C. Americano que deu as maiores glórias ao futebol brasileiro, fundou-se em 1903, em Santos, mudando-se posteriormente para São Paulo.
Enquanto isso, no Rio, somente existiam grémios ingleses, praticando esporadicamente o futebol, surgindo o Fluminense, em 1902 e o Bangú, o Botafogo e o América, em 1904. Cabe aí uma observação curiosa: tiveram muito maior vitalidade futebolista esses nossos quatro grêmios que, até hoje brilham nos primeiros postos, do que todos s valorosos clubes paulistas citados, de há muito desaparecidos das canchas.
Fundada a Liga Paulista, desde 1902 fazia disputar regularmente seus campeonatos quando a nossa Liga Metropolitana de Futebol surgiu fazendo realizar o seu primeiro torneio em 1906, ano em que o Botafogo foi ousadamente a São Paulo enfrentar um selecionado paulista, levando apenas: três reforços. Conrado Mutzembecker, Calvert, do Rio Cricket, e Armindo Motta do Atletic.
Passaremos a descrever ésse célebre encontro que Flavio Ramos, um de seus heróis relatou admiravelmente em nosso Boletim agôsto de 42.
1º jôgo: Selecionado Paulista x Botafogo. Data: 4 de agôsto de 1906. Local. S. Paulo. Resultado: Botafogo, 2x1.
Clube de rapazes adolescentes, com dois anos de existência, apreendendo ainda a jogar, figurando apagadamente no primeiro campeonato carioca pois que só no ano seuinte tornar-se-ia o grande rival do Fluminense, com o qual empataria a primeira colocação, o Botafogo, por inspiração de seu grande impulsionador e benemérito, o presidente Souza Ribeiro, empreendeu esta ousada excursão para enfrentar um verdadeiro selecionado paulista que a 31 de julho de 1906 enfrentara, embora perdendo por 6x0, os temíveis sul-africanos, no primeiro jôgo internacional disputado no Brasil.
Eis como a imprensa da época descreveu o jôgo, considerando o nosso então modesto como um combinado carioca e chamando-o de "Fluminenses", denominação então em voga para os cariocas, como se verá a meudo.
Rio v. S. Paulo — Vitória do Rio — A taça Elihu Root.
Causou indescritível contentamento a noticia que ante-ontem publicamos, em resumo o Grande "match" de "footballers" jogado sábado último entre os "teams" Rio e S. Paulo, em honra do Sr. Elihu Root, do qual reultou a belíssima vitória dos fluminenses.
Foi uma surpreza geral em rodas de "footballers", porque o "team" do Rio, conquanto estivesse homogeneamente constituido e com bons elementos, entretanto não se treinou uma só vez, para enfrentar o digno adversário cujos elementos eram de intimidar o "team" carioca mais forte. Os jornais paulistas de ontem tecem grandes elogios aos "footballers" cariocas e descrevem circunstanciadamente a peleja em todos os seus detalhes. O Velódromo Paulista apresentava aspecto soberbo, com a sua ornamentação profusa e de muito bom gôsto, destacando-se principalmente a tribuna de honra que era o que mais chamava a atenção. Daí assistiram à luta, o Sr. Elihu Root, Secretário de Estado da União Americana e o Sr. Lloyd Griscom, Embaixador Americano e suas Exmas. famílias, o Dr. Jorge Tibiriçá, Presidente do Estado, altas autoridades e pessoas gradas.
A concorrência de assistentes, no número dos quais encontrava-se o "smart" paulista foi calculada em mais de 8.000 pessoas, isto é, arquibancadas, tribuna de honra, pavilhão e as outras dependencias do Velódromo, encheram-se "au grand complet".
O jogo teve início às 4 e 20 p.m., os teams achavam-se assim dispostos no "ground":
Fluminense: — A. Werneck, J. Leal, O. Werneck, J. F. Macedo Soares, C. Calver, C. Mutzembecker, N. Hime, F. Ramos, A. Sampaio, G. Hime, A. Motta.
Paulistas — J. Miranda, Pinto, W. Jeffery, Stwart, Maneco, Pyles, A. Ruffin, Gonçalves, B. Cerquera, O. Andrade, H. Ruffin.
O "match" começou com um jôgo um tanto fraco e indeciso, de parte a parte; o team paulista, porém, parecia mais forte, visto o desembaraço com que os suas linhas agiam e o belo jogo de passes que se notava nos "forwards" e "halves". Retirou-se logo após machucado o "in-side right wing forward" paulista Gonçalves.
Os paulistas trataram de enfrentar o inimigo e com energia; o goal do team do Rio foi vasado, em seguida, e desta forma: a linha de forwards, secundada dos half-backs avançou com a bola em passes e combinadamente; nas proximidades do goal área, o "out side left" fez um belo passe ao "center-forward" Vevé que, com um shoot admirável, conseguiu marcar para team o primeiro e único goal, sob os aplausos estrondosos dos circunstantes.
Dêsse match em diante o jôgo animou-se extraordinariamente, cerrando em seguida os fluminense o ataque contra o goal dos paulistas. A luta entre os aguerridos teams tornou-se acesa, durante alguns minutos, ouvindo-se ininterruptamente, estrondosos e frenéticos aplausos. Os paulistas voltaram a carregar o ataque contra as linhas inimigas, mas sem resultado, devido à defesa brilhante que se notava e na qual se distinguia principalmente, a linha dos "halves" e o "goal-keeper" A. Werneck. Finalmente o 1º "half-time" findou, apitando o "referee" com este resultado: Fluminenses, 0 "goal" x Paulistas, 1. O jôgo no 2º half-time modificou-se bastante; começou com o ataque do team paulista ao qual respondeu garbosamente o Fluminense. Houve um corner dado contra o team do Rio, sem proveito para o inimigo; A. Werneck, na porta do goal, defendeu brilhantemente uma bola shootada por H. Ruffia, que lhe valeu aplausos. A. Sampaio deteve a bola e passou-a logo a F. Ramos, que por sua vez passou a N. Hime, que shootou, sem conseguir fazê-la passar os postes do goal paulista. G. Hime apoderou-se logo após da bola, avançando sôbre o campo adversário. Na linha de penalty fez um belo passe a Ataliba Sampaio que, sem perder tempo, shootou. J. de Mirando, porem, rebateu-o galhardamente, indo ela cair junto ao "in side right forward" Flavio Ramos que, com um shoot muito bem conduzido, vasou o goal dos paulistas, marcando para seu team, findos 15 minutos de jôgo emocionante e cheio de belas peripécias, que provocaram os aplausos dos circunstantes. Os paulistas assumiram a ofensiva empregando todos os recursos, mas os fluminense sem resultado. A bola continuou no campo dos fluminenses e seu goal foi alvejado pelos forwards inimigos, porém improficuamente. Os jogadores cariocas cada vez demonstraram maior calma e tática, procurando sempre regularizar os ataques. Os seus forwards combinaram as avançadas e trataram de pôr em perigo o goal do valente antagonista, Tutu cujas excelentes qualidades de goal-keeper são bastante conhecidas, rebateu brilhantemente diversas bolas shootadas pelos cariocas, ora com fortes kicks, ora com certeiros munhecaços.
A peleja prosseguiu animadíssima; os forwards e halves fluminenses, carregaram o ataque contra o goal inimigo; a referida linha de posse da bola, avança combinadamente contra o antagonista. O "center-forward" Ataliba Sampaio, sabendo tirar, com a maior habilidade, proveito de um passe admirável "in side left" Gilbert Hime, shootou com segurança, fazendo aninhar a bola na séde-goal dos paulistas e marcou para o seu team o 2º e último goal.
Os aplausos foram prolongados e entusiasticos por algum espaço de tempo. Faltavam poucos minutos para findar o match e neste curto espaço de tempo ainda se desenrolaram belíssimas peripécias, que, tornaram o jogo cada vez mais atraente. Os paulistas procuraram tomar a ofensiva empregando todo, os recursos, mas os fluminenses destruíam as tentativas, isto é, reconhecia-se que o team do Rio era mais forte que o adversário. A sua defesa portou-se galhardamente, nulificando todos os esforços do inimigo. Terminou, finalmente, o emocionante match, aplausos e ovacães dos assistentes, com resultado geral: Fluminenses - 2 goals; — Paulistas 1. Ambos os teams jogaram bem, entretanto é de tôda justiça salientar-se A. Werneck, O. Werneck, Calver, Mutzembecker, F. Ramos, A. Sampaio e A. Motta, da lado dos fluminenses; J. Miranda, Jeffery, Stwart, Gonçalves, Vevé e O. Andrade, entre os jogadores do team de S. Paulo.
Cessados os aplausos que coroaram o brilhante triunfo do team do Rio, o Sr. Root levantou-se para entregar ao captain Werneck e artística taça oferecida pelo sr. Dr. Jorge Tibiriçá. S. Ex. pronunciou em ingles um breve discurso no qual sentia-se satisfeito em fazer o entrega do prêmio aos foot-ballers vencedores e deixou patente admiração pelo brilhante torneio que demonstrava a dedicação pelo desenvolvimento físico. As suas palavras foram abafadas com uma estrepitosa salva de palmas. Em nome dos jogadores respondeu o Sr. Philadelpho de Oliveíra que pronunciou uma bela alocução, sendo ao findar freneticamente aplaudido.
Notas:
Relata Flavio Ramos que o nosso saudoso captain Octavio Werneck, falecido em 1917, só pôde responder a Elihu Root:” thank you!" De nosso quadro, além de Octavio, não mais existem João Leal, Mutz e Ataliba
— De acôrdo com o registro de jogos do clube, nossos pontos foram feitos o 1º, por Flavio e o 2º, por Gilbert.
— Em nosso quadro brilharam dois ex-jogadores paulistas: Macedo Soares e Ataliba Sampaio.
— O juiz foi Raphael Sampaio, do Palmeiras e mais tarde, em 1908, nosso valoroso defensor.
— O Velódromo, campo oficiar do Paulistano, era o melhor de S. Paulo e lá o Botafogo disputou quase todos os seus jogos, até 1915, quando desapareceu a tradicional cancha.
— Grifamos e é interessante salientar, para bem focalizar a técnica da época que Tutú Miranda, o maior arqueiro de então, como também mais tarde Hugo de Moraes, o célebre guardião do Americano de 1911, só defendia de sôco e com o pé.
— Para se avaliar a fôrça do Botafogo de 1906 diremos que disputou o campeonato carioca com o Fluminense, o Paysandú, o Rio Cricket, o Bangú e o Atletic, chegando em quarto lugar, com quatro vitórias e seis derrotas, integrado pelos seguintes jogadores: Alvaro, J. Leal e Octavio, Raul Rodrigues, Macedo Soares e Bernaud, Norman, Flavio, Ataliba, Gilbert e Emanuel, ou Rolando, tendo jogado também Antonio Luiz Werneck, Antonio Rodrigues, Viveiros, Lulú Rocha, Adhemoro Delamare, Paulino de Souza e outros .
— Foi este o scratch paulista que dias antes do jôgo contra o Botafogo, enfrentou o quadro Sul-Africano: Tutú, Jeffery e Hodg-kiss; Pyles, Argemiro e Stwart; Léo, C. Miller, Vévé, Andrade e H. Ruffin.
Como se vê, sete désses jogadores, ou sejam: Tutú, Jeffery, Pyles, Stwart, Vévé, Andrade e H. Ruffin enfrentaram o Botafogo
Alceu Mendes de Oliveira Castro.
Acervo particular Alceu de Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 72 de setembro de 1948
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1905 A 1916 2º,3º, 4º E 5º JOGOS
OS INTERESTADUAIS DE 1906 -1916
Em 1908, já com o seu quadro consagrado, o Botafogo excursionou novamente a São Paulo, enfrentando em dois dias seguidos, os fortes quadros do C.A. Paulistano, que seria o campeão do ano e da A.A. das Palmeiras. Nosso team foi reforçado por dois jogadores do Fluminense: João Leal, nosso ex-defensor e Edwin Cox, o famoso centro avante da época.
Eis como a imprensa paulista de então descreveu os encontros:
2º jogo — Paulistano x Botafogo. Data: 15 de Agosto de 1908. Local: São Paulo. Resultado: Empate, 1x1. "O primeiro match da serie São Paulo versus Rio - ontem realizado no ground do Velodromo, entre os teams do C. A. Paulistano e do Botafogo F. C., do Rio, atraiu àquele local extraordinaria concorrencia, principalmente de famílias da elite paulistana, que ostentavam custosas e garridas toilettes, dando desse modo, um aspeto "chic" à bela reunião de ontem.
Às 3,45 da tarde foi iniciada a pelejo, estando os teams organisados da seguinte maneira:
PAULISTANO — Brito; Tommy, Fernão, Macedo Soares, J. Miranda, Rubens, Colston, Peres, Bibi, Pelayo, J. Prado. BOTAFOGO -- E. Coggin, O. Werneck, M. Maio; A. Sampaio, Viveiros de Castro, J. Leal, R. de Lamare, F. Ramos, E. Cox, R. Sampaio, E. Sodré. Atuou como refere o Snr. H. Friése. Dado sinal do inicio do jogo as duas equipes empenharam-se logo numa luta geral, logrando o Paulistano aproximar-se do goal do Botafogo sem contudo alcançar qualquer êxito. De lado a lado vém-se os jogadores trabalhando tenazmente, correndo daqui, defendendo do dali, mas a feição do jogo não desperta interesse. É que ele se desenvolve falto de regra e de combinação, sobretudo.
A defesa do Botafogo não consegue passar a bola para os seus forwards e nem sustenta-los nos ataques. Da parte do Paulistano os forwards não são capazes de combinar entre si de modo a levar a efeito um ataque e manter-se no terreno adversario esperando ocasião propicia, apesar de excelentemente auxiliados pela defesa. Entretanto, apesar dos jogadores se esfalfarem, foi esse o aspecto do primeiro tempo, que terminou sem conseguir nenhum dos teams marcar goal. Recomeçada a luta, no segunda hal-time, o match teve, então, uma fase mais acentuada, mais viva. O jogo de ambos os lados tornou-se rápido e o Botafogo começou a desenvolver melhor jogo, parecendo querer evidenciar certa superioridade. É assim que os seus forwards fazem mais escapadas ameaçando o goal do Paulistano. Viveiros de Castro trabalha com denodo, distribue o jogo em todas as direções, tornando-se um elemento poderoso na luta. Na defesa, M. Maio., porta-se admiravelmente, rompendo todos os ataques dirigidos contra a goal. Dessa maneira, pois, o Botafogo fez por alguns minutos, um jogo inteligente do qual resultou, certa vez, ir a bola aos pés de Flavio Ramos que, numa carreira vertiginosa, consegue passar com os halfs e os backs adversários. Nesse ocasião, o goal-keeper, na iminencia do perigo sai para rebater a bola, mas Flavio logra iludi-lo e marca, então, o primeiro e único goal para a sua equipe. Esse feito é aclamadissimo pelas arquibancadas e também é motivo paro os rapazes do Paulistano meterem-se em brios. O que é foto é que dai por diante, o Paulistano redobrou de energia, atacando com insistencia os seus adversários. E momentos houve em que foi necessário todos os jogadores do Botafogo irem postar-se à frente do seu goal, tal a impetuosidade com que o Paulistano está atacando. De uma feita, porém, as nossos forwards romperam todos os obstaculos que lhes foram opostos e chegaram junto ao goal adversário. Algumas peripécias desenvolveram-se nesse local e, afinal, Peres, recebendo a bola de Bibi, marca o primeiro e único goal para o Paulistano, sob estrondosos aplausos. O jogo prossegue, em seguido, mais entusiasmado, porém, dentro de poucos minutos estava terminado o tempo, com um belo empate de 1 goal a 1. De ambos os lados todos jogaram bem, não sendo justo destacar-se este ou aquele jogador. O refere agiu corretamente".
NOTAS
— O Botafogo jogou desfalcado do grande Lulu Rocha, muito bem substituído por Castro.
No quadro do Paulistano figurou Macedo Soares o nosso defensor de 1906. O grande Rubens Sales começava a celebrizar-se e Tutú transformara-se em centro media. O juiz foi Friése, o famoso crack do Germania.
3º jogo — A. A. Palmeiras x Botafogo. Data: 16 de Agosto de 1908. Local: São Paulo. Resultado: Pailmeiras, 1 x0.
"A peleja ontem disputada no Velodromo, pelas equipes do Botafogo F. C. e da A. A. dos Palmeiras, foi incontestavelmente um sucesso em toda a linha. As arquibancadas estavam repletas de famílias e, em torno do campo, era grande a concorrencia de povo. O jogo primorosamente disputado, foi cheio de lances emocionantes e de peripecias interessantíssimas, que empolgaram o publico durante os setenta minutos regulamentares. Precisamente as 3,40 minutos da tarde, os dois teams, deram entrada em campo, precedidos do refere, Sr. Stany, do S. C. Germania. Os bravos jogadores, como é da pragmatica paulista, foram recebidos com prolongados aplausos. A organização dos teams obedecia à seguinte ordem:
PALMEIRAS — Hugo; Urbano, Lefévre; O. Egydio, TooCollet, R. Guimarães; Doadora, O. Bicudo, R. Masine, R. Saimpaio, M. Egydio.
BOTAFOGO — E. Coggin; O. Werneck, J Leal; A. Sampaio, Viveiros de Castro, V. Crespo, Rolando, F. Ramos, E. Cox, B. Sodré, E. Sodré. Dado o sinal de inicio da luta, imediatamente os jogadores entram decididos em ação, e o jogo desenvolve-se de todos os lados, com os ataques da linha de forwards do Palmeiras sobre o goal dos seus adversários. Estes, logo em seguida, em justa represalia, começam a fazer alguns rushs contra o Palmeiras, dando o que fazer à sua defesa. Estabelece-se, então, uma luta esplendida e rapida entre os teams. Da parte do Botafogo ha forte empenho em pôr embargos contra a combinação que 03 forwards do Palmeiras já começavam a executar. Recebendo varias vezes a bola da linha de halves, Deodoro, de uma feita, escapa com ela, e vai até ao goal do adversario, depois de haver passado os respectivos backs. Era goal pela certa, e aquela multidão de senhoras, que enchia as arquibancadas, anciosa, ofegante, levanta-se e acompanha as peripécias do valente jogador. Mas, Coggin sai do goal e consegue tirar a bola de Deodoro pondo-a fóra do campo. Livre desse perigo, o digno adversario do Palmeiras, longe de cuidar só de sua defesa, organiza rapidamente o seu ataque e em poucos segundos as seus farwards enfrentam as posições adversarias, envolvendo-se em franca disputa. O Botafogo apresentou ontem, no seu team, um elemento de primeiro ordem, que conseguiu, em poucos momentos captar os simpatias do público. Queremos nos referir ao forward Mimi Sodré — um petizinho destemido a valer que fez a defesa do Palmeiras duplicar a sua vigilancia e os seus esforços. Mimi Sodré não tem por habito jogar como de regra, na sua posição, porque ele está sempre junto da bola, quer ela esteja no centro do campo, quer na extremidade. Muito veloz, esperto, possuidor de quasi todos os conhecimentos do foot-ball, Mimi Sodré é um verdadeiro ratinho bronco.
Com um elemento, pois, dessa ordem a linha de farwords do Botafogo praticou, ontem, um jogo deveras magnifico. A despeito, porem, dos esforços de ambos os teams, pouco depois terminou o primeiro tempo do match, sem lograr qualquer um deles fazer um goal. Recomeçado a peleja, o jogo teve a ação brilhante da primeira fase, sendo iniciados belíssimos rushs dos dois lados.
Parecia que a luta de ontem ia ter o mesmo resultado do da vespera, isto é, um empate e quando os forwards do Palmeiras, depois de haverem tentado já inumeras vezes sortidas contra o goal do Botafogo, decidiam fazer qualquer coisa de aproveitavel.
Octávio Egydio, que cada dia se vai tornando excelente half, numa bela ocasião apanha a bola e com bôa diretriz manda o Deodoro, que, correndo vertigionosamente, vai até ao canto da linha de goal do Botafogo. Colocado otimamente, Deodoro passa a bola a Octávio Bicudo que vinha na, sua posição acompanhando a corridsa do seu colega. Decididamente desse lance jogado pelos forwards do Palmeiras ia resultar afinal um goal. E, de fato, Bicudo, que depois de sua estada nos Estados Unidos se nos tem revelado um jogador completo, recebendo a bola de Deodoro, não vacila, e com formidavel kick marca o primeiro e único goal para o Palmeiras, que foi acolhido por estrondosos aplausos partidos de todos os lodos do Velodromo.
Diante do êxito desse lance, o Botafogo tenta também contra o goal do Palmeiras vários ataques, mas a defesa deste consegue inutiliza-los todos. Poucos minutos depois estava terminado o jogo com a vitoria do Palmeiras por 1 goal a 0. Do lado do Botafogo, todos os rapazes portaram-se às direitas, "cavando" cada um coisas impossíveis. No team vencedor merecem elogios Hugo, Urbano, Lefévre, T. Collet, Octávio, Egydio, Deodoro, Bicudo e Masine. Pouco teve que fazer o digno referee Sr. Stany, porque o jogo de ontem primou pela delicadeza de ambos as partes. Depois elo match, foi servido no Grande Hotel, lauto jantar aos rapazes do Botafogo, ao qual compareceram varios jogadores dos teams C. A. Paulistano e da A. A. das Palmeiras. Terminado o jantar, os nossos hospedes dirigiram-se em bonde especial para a "gare" do Norte, onde embarcaram para o Rio. Na "gare" do Norte foram afetuosissimas as despedidas, sendo entoados os hinos de guerra".
NOTAS — Foi a primeira vez que o Botafogo enfrentou a gloriosa e hoje extinta A. A. das Palmeiras, que seria sua tradicional adversaria e amiga, tendo em sua vida agitada, muitos pontos identicos a do Botafogo. Seus socios no Rio, eram alvi-negros e vice-versa, como Carlos Lefévre, um de nossos campeões de 1910 e Raphael Sampaio que na vespera defendera o Botafogo contra o Paulistano e no dia seguinte jogou pelo Palmeiras contra nós. Aliás, o Palmeiras era tambem alvi-negro; em 1908 de camisa preta, do lado esquerdo e branca, do direito; em 1911, de camisa preta, de gola e braços brancos e já em 1914, com sua última camisa, branca, de faixa preta, ao peito. — Esse jogo marcou também a estréia luminosa em nosso primeiro quadro de Mimi Sodré, o mais leal player dos campos cariocas, que, quasi uma criança, estréara na temporada, em nosso segundo quadro, ascendendo ao principal, apesar de suas excepcionais qualidades, somente em 1910. O que foi sua fulgurante estréia, já lemos acima.
— Ha duvidas quanto à constituição de nosso quadro que, para "Jornal do Comercio" foi este: Coggin, M. Maio e Octávio, J. Leal, Viveiros e Ataliba, Canto, Flavio, Cox, Mimi e Emanuel. Damos preferencia, porém, à que consta do registro de jogos do clube, que é a seguinte: Coggin, J. Leal e Octávio; Rolando, Viveiros e Ataliba; Henrique Teixeira, Flavio, Cox, Mimi e Emanuel.
DESCRIÇÕES DA IMPRENSA CARIOCA DA ÉPOCA
4º jogo — Botafogo x Germania —Data: 8 de setembro de 1908: Local: Rio. Resultado: Botafogo, 4x0.
"Chovia miudamente e uma humidade penetrante produzia terrivel mal estar, quando os teams entraram em campo, o do Botafogo F. C. com dois elementos do seu 2º team, e o do Sport Club Germania, sem Riether, o full-back aplaudido em São Paulo e entre nós nas pugnas com o Rio Cricket A. A.
Dinorah, referee correto e competente, apita e os teams tomam posição. São êles: Botafogo F. C. — Coggin, Octávio Werneck, M. Maio; Rolando de Lamare, Viveiros de Castro, Ataliba; Millar, Flavia, Raphael Sampaio, Benjamin Sodré e Emanuel Sodré.
S. C. Germania - Gronau, Marques, Vaz Porta; Gerhordt, Thiele, Anfiloquio; Kirscgner, Einfuhrer, Stani, Behrmam e Hugo.
E começa o jogo, mal conduzido e sem lances, como o da véspera. Dado o kich-off pelo Botafogo, a bola vai logo aos forwords do Germania, que ameaçam o goal contrário, obrigando os backs e o goal-keeper deste os bons trabalhos. O Botafogo, porém, domina desde logo e ataca, embora sem a sua habitual combinação. Depois de alguns incidentes e de uma outra investida do Germania, sem resultado e sem ordem, Flavio Ramos escapo-se e da um shoot que Groncu rebate otimamente; voltam os do Botafogo à carga e Rafael Sampaio consegue fazer um belo goal de meia atura.
Há, depois disso, um hands de Rolando, punido. O valoroso half-back tem o costume de levantar constantemente os braços quando defende; deve perde-lo porque é, nessa sua nova pósição, um jogador de grande destaque. O 2º goal do Botafogo, feito dez minutos depois, foi conseguido por Flavio, de um passe de B. Sodré. E, sem mais incidente; apreciáveis terminou o 1º half-time.
No 2º tempo do jogo; a desorganização no ataque do Germania foi maior ainda, só conseguindo o team avançar um pouco mas sériamente, logo ao princípio e já no fim do match. No princípio, depois de dois bons passes de Gerhardt, um a Hugo e outro a Kirschrier, éste dá forte shoot que Coggin defende com um corner. O corner não produz resultado e o Botafogo firma-se resolutamente nas investidas. Seus forwards fazem passe; e dão shoots que o goal-keeper devolve reais bons kichs, mais parecendo praticar o jogo de back, até que Benjamin Sodré consegue, a 20 jardas aproximadamente, marcar um belíssimo goal alto. Quase que em seguida, Flavio Ramos faz o 4º goal para o seu clube, de um passe de Rafael Sampaio. No fim do jogo, conforme acima dissemos, é que o ataque do Germania se concerta melhor, proporcionando boas defesas do Botafogo, especialmente de Coggin, e alguns corners contra este. Tudo, porém, é infrutífero e o simpático team de S. Paulo finda o último dos seus jogos no Rio sem conseguir um ponto único. O jogo não emocionou nem prendeu. — N. M.".
E outro jornal: — "Ambos os teams jogaram bem, porém seria injustiça não salientar mas Rolando de Lamare e B. Sodré que foram os que mais cavaram para a vitoria do glorioso team do Botafogo F. C.".
NOTAS — O Botafogo jogou desfalcado de Lulu e Gilbert Hime, substituídos por Viveiros e Mimi, sendo que este registrou o seu primeiro goal em primeiros quadros, magistralmente como se viu. O jogo realizou-se no campo do Fluminense, como também o que se segue:
5º jogo: Botafogo x Palmeiras. Data: 12 de Outubro de 1908. Local: Rio. Resultado: Palmeiras, 5x1. "O dia de ontem amanheceu um tanto frio, e ameaçava constantemente, com ligeira brisa sudoeste, o sinal de chuva. O Corcovado estava encoberto de nuvens cinzentas carregadas de água. Eram os melhores indícios de tempestade. Na exposição, o barômetro do correio marcava 2-1, que significa tempo variável; era a última esperança. Eram precisamente 3 horas da tarde quando demos entrada no elegante ground do campeão carioca, o Fluminense F. C. A relva molhada pela garoa dava idéia de um elegante e esmeraldino tapete da Turquia. Às 3 e meia horas da tarde, a equipe do Palmeiras dá entrada em campo, debaixo de salva de palmas. Este team vinha capitaneado por Collet, o simpático. Logo depois, entra a rapaziada querida do Rio de Janeiro e a predileta do belo sexo. Esta é a equipe é o do Botafogo, dirigido por O. Werneck. PALMElRAS — Penteado, Moraes, Lefévre, O. Egvdio, Collet, Guimarães, Godinho, J. Chaves, Masine, M. Egydio, D. Campos. BOTAFOGO — Coggin, Dinorah, O. Werneck, Rolando, V. Castro, Ataliba, N. Hime, Flavio, Pullen, Mimi, Emanuel.
Como se vé da organização acima, o Botafogo foi buscar elementos no Paisandú, e no América Foot-Ball, o Sr. E. Pullen, daquele e o Sr. Dinorah, déste.
O team do Palmeiras vestia camisa preta e branca e a equipe do Botafogo possuia; camisas das mesmas córes, porém, em listas. R. Sampaio, o juiz dá sinal para ser tirado o "toss". Octávio e Collet aproximam-se, o níquel sobe ao ar, e ao tocar o chão, torna-se favorável ao team do Botafogo. Colocada a bola no centro, cabe a saida ao team do Palmeiras. A linha parte combinada, era passes largos e rasteiros. Porém Viveiros escora a bola, avança e vai entregar a sua linha de ataque. Estava o jogo em pleno ardor, pois as passes se multiplicavam e os halves se interpunham. Eram passados uns 10 minutos de jogo e todos cavavam como leões. As palmas saudavam os teams. Collet dava ordens, e Octávio chamava pelos seus. Que belo jogo se desenvolvia! Si a equipe do Palmeiras tem demonstrado contra o Fluminense o jogo que fez contra o Botafogo, iria imaculada para a "smart" capital paulista. Eram passados cinco minutos de jogo, quando o Garfinho, com belo shoot, marca o primeiro goal para a sua equipe. A linha de frente do Botafogo avança; Urbano querendo defender o seu goal, faz um corner, que foi tirado por Ataliba. Flavio escora a bola com a cabeça e marca o primeiro goal para o team do Rio. O jogo estava estupendo, cheio de peripécias. Por toda a parte só se falava nos dois teams. Como eles jogam bem, isto é que é jogo! As avançadas se multiplicam; Masine, o querido "center-forward" do Mackenzie, faz prodígios, marcando o 2º goal para o Palmeiras. Pouco depois acaba o primeiro tempo. Na segunda fase do jogo, Viveiros multiplica-se, mas é tudo baldado. Rolando e Mimi fazem as delícias dos espectadores. Flavio escapa em combinação com Pullen, porém Urbano, o discípulo de José Rubião, corta-lhe as intenções. O jogo está belo. Em dado momento, é J. Chaves o encarregado de marcar o terceiro goal debaixo de estrondosa salva de palmas. A linha de frente do Botafogo carrega sobre o goal paulista. Mario Egydio aproveita a occasião, escapa conjuntamente com Deodoro. Deodoro centra, Dinorah rebate com a cabeça, a bola vai ter aos pés de Mario Egydio; este passa a J. Chaves, que com seguro shoot marcou o quarto goal para o Palmeiras. O tempo estava quase a terminar quando o ligeiro Masine escapou e marcou o quinto goal para os paulistanos. A bola é colocada no centro do campo. Rolando dá a saída, o Botafogo avança, porém a sorte não os protegia. Mimi parte em combinação e com Emanuel, shoota em goal, pórém Orlando, com admirável calma, defendeu o seu goal. Rolando e Mimi, depois do jogo de ontem, podem ser considerados os melhores jogadores cariocas em suas posições. Do lado do Palmeiras, todos jogaram bem; e do Botafogo, Mimi, Rolando e, um tanto sofrível, Emanuel. Aos dois teams muitos cumprimentos pela belo jogo que desenvolveram. O match foi, de fato, mais renhido que o do, ante-ontem. Os jogadores empenharam-se com mais denodo, demonstrando que, para uma derrota, só mesmo uma vitória. E foi por êsse fato que o Palmeiras logo no primeiro half-time quis mostrar o seu alto valor, marcando, após alguns instantes de luta, um goal feito por Godinho que foi como uma soberba epopéia; assim o atestou a assistência”.
-NOTAS — De fato, o Palmeiras possuia um quadro formidável, com o escol do futebol paulista, sendo que em 1908 não disputara o campeonato que logo venceu seguidamente; em 1909 e 10 quando a êle voltou.
— A derrota do Botafogo, vice-campeão carioca e que era 1908 não foi vencido pelo campeão, o Fluminense, com o qual empatou por 4x4 e 2x2, por tão alto score, causou grande surpreza. É preciso considerar-se, porém, que o nosso quadro, além de desfalcado de Lulú, Millar e Gilbert, foi enxertado por dois elementos estranhos, Dinorah de Assis e Edgard Fullen que, na temporada seguinte, integraram-se como dois dos maiores defensores do clube. Pullen, durante anos a fio, quer no futebol, quer no tenis, defendeu bravamente nossas, cores. Dinorah, tragicamente falecido em 1921, foi um formidável zagueiro, dos maiores, se não o maior de seu tempo. Iniciou-se no Internacional, de S. Paulo e, mudando-se para o Rio, em 1908, defendeu, a convite de Belfort Duarte, as cores do América, revelando logo, porém, suas simpatias pelo Glosioso que defendeu valorosamente de 1909.
Teve um trágico fim pois baleado em uma tragédia no qual as circunstâncias o envolveram sem que tivesse a menor culpa, mal restabelecido, em 1909, entrou em campo para defender nossas cores contra o Fluminense, mas em 1911, ainda como consequência do ferimento recebido, sua saude declinou assustadoramente e Dinorah deixou o futebol. Desapareceu. Em 1921 o telégrafo anunciou o seu fim, afogado nos águas do Guaiba.
— Nos quatro interestaduais de 1908, como se viu, figurou sempre no lugar de notável centro-médio que já era Lulú Rocha que devido a uma operação estava afastado do quadro. Viveiros, o hoje benemérito Comandante Eurico Viveiros de Castro, tendo atuado sempre admiravelmente. E, por falar em Viveiros, é o único exemplo que conhecemos, no futebol carioca, de e filhos defendendo as cores de um clube: o Comandante e seus filhos Lauro, Eurico e Emanuel Sodré Viveiros de Castro.
Acervo particular Alceu de Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletins Oficiais nºs 73 de outubro de 1948
74 de novembro de 1948
75 de dezembro
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1906 A 1916 6º E 7º JOGOS
6º JOGO — Botafogo x Paulistano. Data; 18 de Julho de 1909. Local: Rio. Resultado: Paulistano 3x1.
Esse encontro, o primeiro interestadual realizado em nossa gloriosa cancha de Voluntários da Patria, foi assim descrito pelo "Jornal do Comercio": — "Perante numerosa concorrencia, em que predominava o elemento feminino a enfeitar as arquibancadas com suas "toilletes" claras e belas, e animando com seus aplausos os jogadores em luta, realizou-se ontem, no gramado da rua Voluntários da Patria, o emocionante encontro adrede anunciado entre os primeiros teams das duas sociedades cujos nomes encimam estas linhas. Eram 3,30 horas em ponto quando chegaram ao campo do Botafogo os jogadores paulistas, que foram recebidos pela numerosa assistência sob uma salva de palmas. Daí a menos de 10 minutos o referee, apitando, chama às suas posiçães, os teams contendores, assim constituídos:
Paulistano — Armando, Tommy e Cyro; Gulo, Tutú e Rubens; Dacio, Hermes, Bibi, Pelayo e J. Prado.
Botafogo — Coggin, O. Werneck e Raul; Rolando, L. Rocha e Gullen; Miliar, Flavio, Abelardo, Mimi e E. Sodré.
Coube o place-kick aos paulistanos, que tentam desde logo avançar, mas vêm-se impossibilitados de fazê-lo, pois os do Botafogo embargam-lhes o passo, tomando-lhes a bola e põem em demanda do goal adversario sendo obrigados a deterem-se em frente defesa de Tommy. Volta a bola ao centro do campo e dela se apoderam os botafoguenses, que, avançando em bôa combinação vencem e transpõem a linha de full-backs do Paulistano, e Flavio, inside right do team alvi-ne-gro, em certeiro e bem dirigido shoot, vasou o goal sob a guarda de Pederneiras, marcando o primeiro e unico ponto para seu clube. Este feito foi delirantemente aplaudido pela enorme assistência que enchia por completo as arquibancadas.
Eram apenas passados seis minutos que começára o jogo. Recomeçada a pugna, parecia que os jogadores paulistas, se achavam em inferioridade e seriam derrotados pelos nossos. Tudo concorria para confirmar essa previsão, pois até um penalty em que o juiz puniu uma falta de jogador do Botafogo, foi tirado sem resultado. Corria o jogo animadamente e cheio de belos Iances, quando o referee, fazendo trilhar o apito, deu por terminado o primeiro half-time com o seguinte resultado: Botafogo 1 — Paulistano 0.
Depois de cinco minutos de descanso, recomeça a luta sob a grande chuva que então caia. O place-kick foi desta vez dado pelo Botafogo, que imediatamente perde a bola, do qual se apossam os velozes forwards do Paulistano, que para logo deixam à mostra a sua superioridade sobre os seus emulos marcando em fileira cerrada em demanda do goal botafoguense e conseguindo passar pelo valente back Werneck, quasi invencivel, o out-side left J. Prado centra então, e Bibi, center-forward, recebendo a bola, fala aninhar-se na rêde do goal, marcando, assim, o primeiro ponto para a sua equipe, sob estrondosa salva de palmas.
Volta a bola ao centro e começa novamente a pugna, que ainda desta vez termina com a vitoria dos paulistas, marcando o mesmo jogador acima mencionado o segundo ponto para seu clube, assegurando-lhe, desde este momento, sua certeza de vencer os valorosos foot-ballers do Botafogo.
Dera-se começo ao jogo havia apenas seis minutos. O prelio continua sempre crescendo em intensidade e em prodígios de valor de ambos os teams, querendo o Botafogo reconquistar o terreno perdido e os Paulistanos acentuar ainda mais a vantagem que já levavam sobre seu adversaria. Torna-se, então, interessantissimo, sob todos os aspectos, o belo match, que parecia terminar sem mais um ponto para nenhuma das valentes sociedades, quando — havia apenas um minuto de jogo! — o team paulista consegue vazar pela terceira e ultima vez o goal confiado à defesa de Coggin. É autor deste feito, Dacio, out-side right do Paulistano. Daí a pouco o juiz apitava, pondo termo ao encontro, com a vitoria do Club Atletico Paulistano por um score de 3 a 1. A linha de forwards paulista salientou-se toda, maximé Pelayo, J. Prado e Bibi. Salientaram-se tambem, Rubens, Tommy e Pederneiras, bom goal-keeper. Mencionaremos em primeiro lugar do team local, O. Werneck, otimo full-back, Mimi, Flavio, Millar e Rolando. Atuou como refere o Snr. Brooking, que foi imparcial.
7º JOGO — Botafogo x Internacional --- Data: 7 de Setembro de 190: Local: Rio — Resultado: Empate 3x3
Tambem do "Jornal do Comercio": "Conforme anunciamos deu-se ontem o encontro entre os primeiros teams dos clubes cujos nomes estão acima inscritos. A concorrência foi numerosa, correndo o jogo animadíssimo e cheio de belos lances de parte a parte. Ar 3,50 minutos deram entrada em campo os teams que tinham a seguinte organização:
Internacional — Ozorio, J. Voz Porte , Mario Prado; F. Vaz Porto, Aquino e J. C: valho; Raul, Léo, Facchini, Leite e Hugc.
Botafogo — A. Werneck, O. Werneck Pullen; Viveiros, L. Rocha e Rolando; Mimi, Flavio, Abelardo, G. Rime e Emanuel.
Coube o kick-off ao Internacional avançando desde logo a sua linha de forwards contra o goal adversario, mas nada consegue, pois os backs do Botafogo, colocados devolvem a bola a seus companheiros de clube, que tentam avançar; nada obtêm e dentro em pouco, é ela arrebatada pela linha de halfes do team vermelho e preto, que de novo a enviam a seus forwards. Nesta ocasião, Rolando cometeu um hands, logo punido pelo juiz com um free-kick, que foi batido por Aquino, sem entretanto haver resultado algum.
Organiza-se, então, a linha de ataque do Internacional e avança admiravelmente bem combinada contra o goal confiado à guarda de Alvaro Werneck. Facchini recebe um bom centro finge driblings contra seus adversários e, com uma calma extraordinaria, dá shoot e" faz a bola aninhar-se na goal, sob os aplausos da assistência. Volta a bola ao centro e o Botafogo tenta avançar, afim de ver se consegue anular a vantagem levada pelo seu competidor, mas nada consegue, por isso que a defesa contrária lhe embarga o passo, toma-lhe a bola aos companheiros de team. Os do Internacional não desanimam; voltam à carga e Léo vence pela segunda vez A. Werneck marcando mais um goal para seu club. Recomeçado o jogo, cabe ao Botafogo o ataque os seus forwards o fazem muito bem combinados, pondo em perigo o goal adversário e tal é o perigo, que um jogador do team vermelho e preto para evitá-lo, ocasiona um corner que foi muito bem batido por Emanual mas nenhum resultado produziu. Os do Botafogo voltam novamente ao ataque e Mario Prado, como defesa, é obrigado a ocosionar novo corner, mal batido pelo jogador que o primeiro. O Botafogo, porém, longe de desanimar com isso, pelo contrario, de ardor e entusiasmo e avança celeremente em busca do goal confiado à pericia de Ozorio. Millar, que vai com a bola, passa-a para o extrema esquerda; este faz belo centro, admiravelmente aproveitado por Abelardo que, com forte shoot, vaza pela primeira vez o goal adverso, sob uma tempestade de aplausos. Continua ainda o jogo bastante animado, quando o referee apitando por terminado o primeiro half-time, este resultado: Internacional, 2 goals — Botafogo, 1 goal.
Findos os dez minutos de descanso, reentram em campo os jogadores, recomeçando-se mediatamente a luta. Ao team alvi-negro cabe encetá-la. Os seus forwards vêm dispostos a desfazer a superioridade já acentuada do clube vermelho e preto; e este parece mante-la a todo tranze, pois ataca violentamente e obriga a defesa contraria a cometer três corners em seguida, todos tirados sem resultado. O Botafogo arremete celeremente em demanda do goal adverso. Abelardo shoota fortemenre e o goal-keper faz bôa defesa; Lulú shoota novamente, passando a bola por cima da trave superior. Novo ataque do Botafogo e perde este clube mais uma vez, ocasião de marcar mais um ponto. Emanuel dá um bom centro, Millar quer vazar o goa! de Ozorio, mas não consegue, visto a má direção de seu shoot. O Internacional sacode de sobre si, então, o cansaço que já parece dominá-lo e avança em carga cerrada. Ha enorme confusão em frente ao goal do Botafogo e Alvaro Werneck fazendo uma bôa defesa, salva-o de perigo iminente. Os jogadores do clube preto e branco mais uma vez organizam-se e põem-se em bôa avançada em demanda do goa! adversario. Mario Prado ocasiona outro comer que Hime tira mal. É neste reencontro que os jogadores do Internacional, num ultimo e bem sucedido esforço, avançam rapidamente, dispostos a levar tudo de vencido; passam pelos backs contrarios e Facchini recebendo a bola, fala aninhar-se na rêde do goal, marcando, assim, o terceiro ponto para seu team. O Botafogo, em vista de uma derrota quasi certa, cria alma nova; os seus jogadores incendiam-se então; enchem-se de entusiasmo e marcham em carga cerrada contra o internacional, e Flavio, numa escapada, marca novo ponto para seu clube. Recomeçado a jogo, em vista do resultado obtido, o Botafogo entra de novo a atacar furiosamente; Lulú recebe um centro de Miliar e shoota, mas a bola passa pela trave superior do retangulo. Este insucesso, longe de arrefecer o ataque por parte do team alvi-negro, falo aumentar extraordinariamente; os seus forwards mantêm-se constantemente em frente ao goal do Internacional, atacando-o sempre. Um dado momeno, Gilbert Hime recebe a bola, vai com ela até proximo ao goal defendido por Ozorio e vence este novamente, marcando mais um ponto para seu team. Estavam os contendores em igualdades de condições e o tempo a terminar. Dentro em pouco o refere apita e dá por findo o belo macth sem haver vencidos nem vencedores. Salientaram-se do Internacional: M. Prado, Aquino, J. Carvalho, Leite, Léo e Facchini, otimo center-forward. Mencionaremos do Botafogo: Rolando, Lulú, O. Werneck, Pu!len e todos os forwards. Atuou como refere o Sr. Neoble".
NOTAS: Foi em 1909 que em substituição ás camisas tipo bluzão, e Botafogo esttreou as de malha que usa até hoje, com a interessante exceção de 1947, quando voltou as primitivas.
— O extraordinorio Abelardo Delamare, como Mimi Sodré, quando disputou os jogos supra, ainda pertencia ao nosso segundo quadro e era muito criança.
-- No Internacional brilhavam dois maiores cracks de então: Aquino e Léo Belegarde. Jacomo Facchini que em 1913 comandou o nosso ataque, entre Abelardo e Mimi, iniciava sua brilhante carreira.
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 78 de março de 1949
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1906 - 1916 8º JOGO
Palmeiras — Botafogo — Os "teams" destes clubes entraram em campo às 4 horas. Coube a saída ao Palmeiras, que a fez mal, perdendo logo o "ball", que andou de lodo a lado, em belo jôgo, até bater aos pés de Deodoro, de onde em bons passes, correu todo o campo contra o "team" carioca, que opôs forte defesa; porém Deodoro, da extrema-esquerda, deu forte "shoot" aninhando o balão na rêde do Botafogo. Palmas e bravos estrugiram vitoriando este feito.
No centro a bola, saiu o Botafogo rapidamente, mas o "team" paulista não fraqueou na defesa, empurrando a bola aos pés de Lulú Rocha, que a perde paro M. Egydio, que marcou o 2º "goal" contra o Botafogo, mas o refere não marcou este ponto, pois M. Egydio estava "off-side". Foi registrado o primeiro "corner" contra o "team" carioca, que, embora magistralmente tirado, não teve resultado.
Começou, então, um jogo extraordinário por parte de ambos os contendores, permanecendo a bola em constante vai-vem no meio do campo, devido aos rápidos ataques e às ótimas e seguras defesas. Mais dois "corners" contra o Botafogo e um contra o Palmeiras, também sem proveito. Em dado momento ficou muito apertado o ataque na parte do "team" paulista, e, depois de heróica defesa, Lulú calma e magistralmente marcava o primeiro goal do Botafogo. Indescritivel foi o entusiasmo da assistência numerosíssima aplaudindo êste feito. Coube de novo a saída ao Palmeiras, que continuou firme no seu ataque, mas o relógio do referee marcou o fim do primeiro half com o resultado de: Botafogo, um, Palmeiras um. De novo no campo, o Botafogo teve a saída, tendo tirado proveito dele, sendo Deodoro obrigado a dar um hand para evitar um gool contra seu team, porém retardou tão somente, porque Flávio marcou em seguida o goal do Botafogo, que muito justamente considerado off-side.
Neste tempo, José Rubião retirou-se do campo seriamente adoentado. De um corner contra o Palmeiras, M. Egydio fez um foul que punido com um free-kick tirado por Lulu vai de pé em pé cair nos de Mimi Sodré qual quando shootou, estava off-side, não tendo mesmo feito o goal. Rapidamente a correu o campo, indo aos pés de Deodoro, fez o 3º goal do Palmeiras, também off-side3. Continuou o jogo forte de parte a parte muito emocionante, cavando cada adversário o desmpate. Coube ao Botafogo que, a o último goal marcado por Flavia Ramos, a vitória pelo resultado de dois contra um.
Os teams estiveram assim organizados:
BOTAFOGO: A. Werneck, Dinorah e Octavio; Rolando, Lulú e Pullen; G. Hime, Flávio Abelardo, Mimi e E. Sodré.
PALMEIRAS: Orlando, Rubião e Urbano, Salvio, Collet e O. Egydio; lrineu, Godinho, Mazine, M. Egydio e Deodoro.
NOTA — Foi nossa primeira vitória sôbre o grande quadro do Palmeiras, campeão paulista do ano.
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular: Alceu de Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 79 de abril de 1949
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1906 A 1916 9º JOGO
O jogo — Acompanhados da comissão recepção, às 3 horas em ponto, chegaram campo, em bond especial da Jardim Botanico os foot-ballers paulistas. Às 3 1/3 foi dado o sinal para o kick-off estando os teams assim constituídos:
S. PAULO ATHLETIC: Ch. Miller, Hamond e Astburry; Brotherhord, Steward e Kins; Banks, Colston, Boye, Bradfield e Berts. BOTAFOGO: O. Baena, Pullen e Dinorah, J . Cauto, Rolando e Lefèvre; Emanuel, Abelardo, Décio, Mimi e Lauro.
Coube o place-kick aos do Botafogo dando a saída, logo perdem a bola para os ingleses, que, em seguida, ameaçaram seriamente o goal sob a guarda de Othon. Retomada a mesma pelos backs do Botafogo e entregue a seus forwards, estes investem resolutos ao goal adverso, perdendo o magnífico rush devido a um off-side de Emanuel. Os ataques revezavam-se: ora um, ora outro team, em combinados passes, dirigem-se ao goal adversário, onde os backs sempre vigilantes, secundados pelos halves, anulam investidas das ágeis linhas de forwards. Em seguida a um foul de Roberts, cujo free-kick é tirado por Dinorah, o Athletic organiza magnifico ataque às barras adversas, demostrando que o jôgo seria disputadíssimo, como efeito o foi.
Depois de ter por alguns momentos parado a bola na área do goal do Botafogo, a linha de forwards a leva até os halves do Athletic, onde, Décio, recebendo bom passe de Abelardo, dirigi-se só ao goal inglês. Sai ao seu encontro, Hammond, por quem Décio passa em dribling. Miller em último recurso sai também do goal; Décio, porém, sua calma habitual, fazendo um belo dribling, entra no goal sem obstáculo, marcando o primeiro ponto para a equipe brasileira aos 15 minutos de jogo.
Aplaudido este feito pela seleta concorrência o Atletic ataca pela sua ala direita, levando-a à linha de goal inimiga, onde Dinorah ocasiona corner tirado sem resultado. Registram-se depois, dois magnificos centros de Lauro, perdidos por Abelardo, belas defesas de Miller, diversos off-sides de Emanuel e Abelardo, devido à estupenda colocação de Hammond e Astburry, e Emmanuel escapando do meio do campo da extrema direita, vem com a bola, perseguido por Astburry e driblando Hammond, shoota da área de penalty, quase em frente a Miller e com um kick firme envia a bola à rede pelo canto superior do lado direito, marcando aos 25 minutos de jogo o 2º goal para o Botafogo, que, como o primeiro, foi muito aplaudido.
Dado de novo o place-kick, o Athletic investe rapidamente ao goal do Botafogo, onde Pullen, procurando defender, ocasiona um corner-kick admirâvelmente tirado por Tomkins, o qual manda a bola á área de penalty, com um bom shoot e depois de rápido scrimmage é a mesma enviada à rede por Colston, que abre o score do team inglês, sob as gerais exclamações dos assistentes. O Athletic, feito este goal, continuou a atacar, procurando desfazer a vantagem do Botafogo, nada porém conseguindo devido à tenta vigilância da defesa do team alvi-negro. E assim, com um magnífico shoot, enviado de Roberte, da extrema, bem escorado por Baena, termina o 1º half-time, estando as equipagens nas seguintes condições: Botafogo, 2 goals - Athletic, 1.
Dez minutos depois, tendo findado o regulamentar descanso, voltam as equipes ao campo para continuar na emocionante e equilibrada luta, com os esplêndidos ataques, ora de um, ora de outro team, tendo contudo os do Athletic conseguido obter uma pequena superioridade nesta parte do jogo, donde resultou neste half, fazerem três goals, enquanto o Botafogo marcou mais dois. Cabe, desta vez, a saída ao Athletic, que leva o bola à defesa do Botafogo, rebatendo Dinorah com bela cabeçada um forte kick ao seu goal. Nota o referee também neste half-time alguns offsides de Emanuel e Abelardo, que, não estando habituados, não notaram o magnifico jogo dos backs do Athletic, que estavam sempre admiràvelmente colocados. Poucos minutos após a saída, Décio, das proximidades da linha de halves inglesa, escapa, dribla os backs de trás da defesa contrária e com fortíssimo pontapé, manda pela terceira vez a bola à rede do goal inglês, e Miller, na impossibilidade de rebater, permanece imóvel, denotando, além do grande conhecimento do jogo, uma calma admiravel.
Feito este goal do Botafogo, o Athletic resolve, a todo custo, desenvolvendo belíssimo jogo de passes, desfazer as vantagens conquistadas pelo team alvi-negro. E, com efeito, vê minutos depois coroados de êxito os seus brilhantes esforços, tendo Bradfield ocasião de fazer, de quase extrema esquerda, com belíssimo shoot, o segundo goal para o seu team. O Botafogo procura rehaver a diferença do seu score, havendo entre a sua combinada linha de forwards belíssimos passes entre Mimi, Décio e Abelardo, que em rápidas investidas conseguem passar, com dificuldade, pelos backs adversários. Porém, lá no goal está Miller que apara os fortíssimos shoots com calma e envia a bola aos seus forwards. Numa destas investidas a esplêndida linha do team inglês consegue shootar a goal Baena defende, porém cai, parando a bola pouco adiante. Bradfield, sempre bem colocado, não perde a ocasião e com shoot enviezado no canto direito, marca com shoot firme o terceiro goal para o Athletic. Estavam empatados os dois teams. Faltavam ainda 15 minutos para terminar o importante match. O Botafogo dá de novo a saída e logo perde a bola, para o Athletic, que avançando obriga Lefèvre a fazer corner, tirado por Botherhood e anulado por Rolando. Mimi, recebendo esta bola nas proximidades de seu goal, atravessa todo o campo e, perseguido pela defesa contrário, se desvia para meia-esquerda e, com vertiginosa carreira, shoots quase da linha de goal do Athletic, mandando a bola ao goal com belíssimo shoot enviezado. Lá, porém, estava Miller, que com a segurança que lhe é peculiar, pega a bola com calma, enviando-a ao meio do campo com forte pontapé._ Nesta ocasião ataca o Athletic pela sua ala esquerda e em passes entre Roberts e Bradfield, que levam a bola à área de penalty do Botafogo, onde Rolando, completamente virado para o seu goal, dá belíssima "puxada" quase com a palma do pé, defendendo assim o seu goal, no que foi muito aplaudido. Continua o Athletic a atacar, defendendo Pullen fortíssimo pontapé, com belísima cabeçada, a quase quatro ¡ardas do goal! O Botafogo ataca; Abelardo escapa só dribla os backs adversários e dirige-se ao goal inglês. Miller sai ao seu encontro. Abelardo a quase 30 jardas, caindo dá o shoot; passa ligeira por Miller e vai molemente se aninhar no lado esquerdo do goal, for assim o quarto e último goal para o set. Readquirida esta superioridade pelo Botafogo, procura de novo o Athletic desfaze-la e cabe ainda a Bradfield fazer a pouca distáncia o 4º e último goal para seu8 club. Faltam cinco minutos para terminar e no entanto os concorrentes não desaníman procuram a todo o transe desempatar jogo. É assim que vemos mais um bem organizado ataque do Athletic, e Dinorah batendo, passa a bola a Emanuel que a leva até a posição de center-forward e aí passa a Lauro. Este leva em rush a Hammond, de onde, Abelardo, escorando envia de perto um forte kick ao goal onde Miller, sempre colocado, pela esta kick sob os aplausos da assistência. Alguns minutos mais, e depois de outro ataque do ala esquerda do Botafogo, anulado pela magnifica defesa do Athletic, termina o belissimo encontro com o magnífico resultado de Botafogo, 4 goals — S. Paulo Athletic, 4 goals.
Todos os jogadores jogaram bem, sendo porém de justiça salientarmos pelo Botafogo: Décio, Mimi, Abelardo, Rolando, Pullen, Dinorah e Lauro e pelo Athletic, Miller, Hamond, Astbury, Colston, Stewards, Boyes e Bradfield.
NOTAS -- No quadro do Athletic campeão paulista de 1902-3-4, figuroo o celebre Charles Miller, o homem da primeira bola, "pai" do futebol paulista.
No do Botafogo, já brilhavam os paulistas Carlos Lèfevre e Décio Viccari. Este, vindo do glorioso Americano e que no Americano retornaria, foi o primeiro grande cento-avante nacional, tendo ligado o seu nome às primeiras e inesquecíveis vitórias do futebol brasileiro, como ver-se-á oportunamente. Tinha a constituição hercúlea e ficou célebre pelo seu terrivel tiro de bico de pé. — Faleceu Outubro de 1947, em Ribeirão Preto, sua cidade natal.
ALCEU MENDES DE OLIVEIRA CASTRO
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 80 de maio de 1949
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1906 – 1910 10º JOGO
10º jogo — Palmeiras x Botafogo. Data: 15 de agosto de 1910 - Local; S. Paulo. - Resultado: Botafogo 7x2
Eis como "Jornal do Comércio" da tarde descreveu este celebre encontro, uma das maiores façanhas do Glorioso no inesquecivel ano de 1910, esmagando, em S. Paulo, o formidável conjunto campeão de 9 e 10:
Conforme noticiamos, partiu no domingo, à noite para S. Paulo, o "team" do Botafogo para se bater naquela capital com o provavel campeão paulista deste ano, — a A.A. das Palmeiras.
Os rapazes do Botafogo, como verdadeiros “sportmen", fizeram no domingo um "tour de force", pois, diversos deles, tendo tomado parte nas regatas, para tomarem o trem das 6 horas, foi necessário tomar automoveis e com grande velocidade, chegarem antes da partida do mesmo trem e isto fizeram ainda com o uniforme de regatas, pois tinham corrido no último pareo. Esperados na estação da Luz, em S. Paulo, por grande número de sócios do Palmeiras e de outros clubes, e também por muitos rapazes daqui, que foram especialmente à capital paulista para ter o prazer de assistir a importante match, eles seguiram em bondes especiais para o Grande Hotel, de onde, após o almoço, sairam a passeio pelos diversos lugares pitorescos da cidade, indo até a checara da Floresta visitar a sede do Palmeiras. A anciedade pelo resultado deste importante match era enorme, não só nesta capital como em S. Paulo, e diversos rapazes do team do Botafogo nas garantiram que iriam jogar com o maior cuidado e combinação, pois queriam de lá voltar com mais uma vitória. Conhecemos a linha de forwards do Botafogo e com os elementos de que dispãe de agilidade, combinação, ligeireza e resistência, é preciso serem "Corinthians" para parar as suas investidas, salvo raras exceções, quando há alguma anomalia ou indisposição na linha, o que não raras vezes acontece, mas quando quer jogar o jogo coletivo e seguir o lema de "todos por um e um por todos", ela torna-se fortissimo.
Na linha de "halves", todos conhecem a resistência de Lulú, o jogador limpo, e Rolando, o "cavador". Na linha de "backs" é sabido a calma de Dinorah, bem como o jogo de Pullen. Pena é que não tenha jogado o seu goal-keeper O. Baena que, com a sua proverbial agilidade e suas pegas seguras, muito havia de fazer pelo seu team; não desmerecendo de Coggin, que tem contra si, no lugar de goal-keeper, ser um pouco nervoso, não deixando, por isso, de quase sempre jogar bem. Assim, o team do Botafogo é composto de bons jogadores e ia se bater com um competidor digno dele, pela sua merecida fama de também ser composto do que há de melhor como jogadores de foot-ball na capital paulista. Às 3 horas, já o Velodromo estava completamente cheio da "elite" social paulista, oficiosa pelo inicio do primeiro match interestadual deste ano, entre dois clubs amigos, mais de reconhecido valor.
Antes de iniciar a descrição do jogo, convém dizer que não contavamos com uma vitoria tão estrondosa por parte do Botafogo, porque não só diversos jogadores do team tinham corrido nas regatas (e nós sabemos o que é puxar no "pinho" 3.000 metros), como também porque iam jogar depois de uma viagem estafante, viagem que quasi sempre se faz sem dormir, porque a reunião de diversos amigos intimos em um só vagão, em viagem de verdadeira troça amigável, quase sempre resulta em brincadeira constante daqui até lá; e assim repetimos: si tinhamos confiança nos rapazes do Botafogo, ela era um pouco baqueada não só pela razão que já alegamos como também porque iam jogar dois elementos do segundo team. Em todo o caso, tinhamos confiança na vitória mas não de tal tamanho. É verdade que, ultimamente o Botafogo tem desenvolvido um jogo extraordinário, pela combinação, filha da disciplina que presentemente tem sido mantida no team do Botafogo.
O dia de segunda-feira, como que querendo colaborar para dar maior realce à visita dos fluminenses aos seus amigos paulistas, esteve lindo, esplendoroso e primaveril.
Os rapazes do Botafogo chegaram à capital paulista às 5,30 da manhã, sendo recebidos festivamente pelos rapazes do Palmeiras, com a lhaneza e regosijo de que só possuem o segredo.
Pouco depois de três horas, o Sr. H. Frieze, do Sport Club Germania, deu entrada no field, seguido dos dois teams, que estavam assim constituídos:
Palmeiras — O Penteado; J. Salerno e Urbano Moraes; Andrew, T. Callet e O. Egydio; Jarbas, Fritz, E, Mendes, M. Egydio e Deado-o Campos.
Botafogo — Coggin; Pullen e Dinorah; J. Couto, Lulu e Rolando; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro.
Coube o "kick-off" ao team do Botafogo Um movimento de sensação geral, um magnetismo empolgante correu por todas as arquibancadas do Velodromo, onde regorgitava tudo quando o elemento feminino paulista tem de mais "chic" e mais belo. E movimento de espectativa não correu só as arquibancadas; ele fez a sua volta em todo campo que se achava completamente cheio nos fazendo lembrar as enchentes dos matchs dos "South Africans", dos Argentinos, e o próprio Botafogo, no match em que se disputava a "Taça Root", de que é detentor este clube.
Notava-se, do lado do Palmeiras a quase certeza na vitória, naturalmente por deduções visto ter o Botafogo empatado com team que o Palmeiras infligiu uma "sova” de 5x2 e, demais, a vontade da desforra derrota do ano passado.
Do lado do Botafogo notavam-se a serenidade, a calma, a intrepidez e a confiança em si próprio. Durante os cinco primeiros minutos de jogo, nenhum dos teams se pronunciou abertamente, querendo conhecer o seu lodo fraco. Depois desta indecisão natural, os cariocas iniciaram o seu ataque desenvolvendo então a sua admirável técnica a sua irrestivel combinação, aqui conhecida por "mata backs". Décio, center-forward do Botafogo, abre o score para o seu team vasando o goal do Palmeiras com um shot rasteiro a 12 jardas do goal.
O Palmeiras, desejoso de não ser suplantado, dá um forte ataque ao campo do Botafogo, obrigando um jogador deste clube cometer um corner, que bem tirado por Eurico Mendes, é sabiamente aproveitado por Andrew que, com uma cabeçada, faz a bola se aninhar no goal do Botafogo.
Achavam-se os teams em igualdade de condições. Diante deste feito, os cariocas resolveram abertamente a atacar, o que fez com calma, combinação e impeto, que desnortearam completamente a tão boa e firme defesa do Palmeiras. Este ataque mais se acentuava pela sua delicadeza e pela ausencia completa do jogo pessoal.
O Botafogo, com este ataque harmônico e metodicamente feito, domina completamente a brilhante equipe do Palmeiras. A assistencia, que tinha aplaudido com entusiasmo o feito de Andrew, aplaudia agora os belos passes, as lindas combinações e a magistral tática desenvolvida pelas linhas do Botafogo. Rendia homenagem e fazia justiça ao jogo produtivo de passes e à disciplina que reinava. Minutos depois de um passe de Lulu para Lauro, este centra, escorando-o com um "drop-kick". Mimi, marcando o segundo goal para cariocas, aplaudido com delírio. Dada novamente a saída, o Botafogo continua o ataque, fazendo Abelardo, mais um goal, com belo shoot. Mais alguns minutos de jogo ainda o primeiro half-time com o seguinte resultado: Botafogo, 3 goals. Palmeiras, 1 goal.
No intervalo do match, a sempre gentil diretoria do Palmeiras, ofereceu ao team do Botafoho uma linda corbeille de flores naturais de onde pendiam fitas com as cores preta e branca, com a dedicatória: — "Ao valoroso Botafogo, oferece a A. A. das Palmeiras" Em nome do Botafogo, agradeceu a oferta, Emanuel Sodré. Foram tiradas diversas fotografias nesta ocasião. Terminados os minutos de descanso, voltaram novamente os rapazes para o campo, afim de ser recomeçado a luta. Neste half, prosseguiu a supremacia do Botafogo; os ataques da sua linha de forwards sucediam-se com uma admirável combinação, entusiasmando cada vez mais a numerosa assistência.
Após quatro minutos de jogo, Abelardo, sentindo-se solto, fez um belo "rusch" e consegue marcar o quarto goal para o Botafogo. Volta a bola ao centro e os paulistas perdem-na logo no primeiro pontapé. A seguir o team do Botafogo desenvolve jogo estupendo, principalmente de passes magistrais, feito com a cabeça; assim é vimos a bola sair da cabeça de Couto para a de Emanuel, deste para a de Abelardo, deste para a do Décio, que a envia da mesma forma a Mimi e ainda este a devolve do mesmo modo, terminando esta série de passes com a cabeça no Décio, que aproveita a ocasião e shoota, marcando mais um goal para Botafogo.
Continuando o jogo, Abelardo aproveita um bom passe de Mimi e marca, a 20 jardas, mais um goal. Logo depois, Décio marca mais um goal, magistralmente feito. Estes goals foram pelo público assistente aplaudidos com verdadeiro entusiasmo. Os rapazes do Palmeiras, diante da superioridade esmagadora do Botafogo, que neste half-time conservou sempre a bola no campo do Palmeiras, não desanimam, e, quando já todas as esperanças haviam fugido, Eurico consegue vasar o goal do Botafogo. Mais uns minutos de jogo, o referee dá um penalty contra o Botafogo que, tirado por Eurico Mendes, passa por cima da trave. E assim termina o match com a vitória do Botafogo por 7 goals a 2.
Depois do match, quando os rapazes do Botafogo tomavam os "landaus" postos à disposição do team pela diretoria do Palmeiras e ao sairem do Velodromo (com que prazer isto registramos) foram delirantemente aplaudidos por toda a assistência que, propositalmente, fez alas para eles passarem pelo centro.
Voltaram vencedores e mais amigos dos vencidos e gratíssimos aos paulistas.
Sobre a renda do jogo, eis o que disse um jornal paulista: "Para se avaliar da importância de que se revestiu o primeiro match interestadual basta notar que a receita subiu a 3 contos de reis, o que por si só mostra o pleno renascimento do salutar sport inglês entre nós".
NOTAS — Nosso quadro, nesse celebre jogo, atuou desfalcado de Carlos Lefévre que teve em seu lugar Juca Couto, o esplêndido half de nosso segundo quadro.
- Provávelmente um dos que tomaram parte na regata referida na magnfica descrição que transcrevemos, foi Lulu Rocha que foi um grande remador do C. R. Botafogo (como já eram unidos os dois clubes), onde formou com Flavio Ramos, Alvaro Werneck e Mario Pereira da Cunho a celebre guarnição denominada dos "foot-ballers" fato interessantemente lembrado por Mario Filho em sua notavel obra "O negro no futebol brasileiro".
— Vamos sair da rota que nos traçamos ao referirmo-nos a outra grande vitoria do Botafogo que acha-se indissoluvelmente ligada aos "7x2" contra o Palmeiras, pois que constituem as duas proezas maximas desse fantastico e lendário ano de 1910 que deixou o Botafogo cognominado pela voz anônima das multidões, o "Glorioso".
Referimo-nos a que foi obtida um mês depois, em 25 de setembro dé 1910, em nosso querida e inesquecivel campo de Voluntários da Pátria, os "6x1", que garantindo-nos brilhantemente o campeonato, derrubaram a hegemonia do formidável quadro do Fluminense, dando outro interesse ao futebol carioca.
A competição começou pelo jogo de segundos quadros que vencido pele Botafogo, por 1x0, garantiu-lhe mais um torneio, a reunir-se aos de 1906-7 e 9 já brilhantemente levantado. Paula e Silva, o hoje querido "Vovó" marcou lindamente o goal da vitoria, tendo sido este o quadro: Cesar, C. Viona e Dutra; J. Couto, Norman e Adhemaro; Nilo Rasteiro, Flavio, Carlos Hasche, P. e Silva e Mario Fontenelle.
Sob intensa espectativa, seguiu-se o jogo principal, alinhando-se, ao apito do juiz A. H. Hasseil, os seguintes conjuntos:
Botafogo — Coggin; Pullen e Dinorah; Rolando, Lulu e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Décio, Mimi e Lauro.
Fluminense — Waterman; F. Frias e Paranhos; Nery e Mutz; Galo, Miliar, Oswaldo Gomes, Cox, Gilbert Hime e Borgerth.
No quadro tricolor figuravam dois ex-alvi-negros, Millar e Gilbert e três jovens que começavam suas brilhantes carreiras Nery, Gaio e Borgerth e que dariam mais tarde, as maiores glorias ao Flamengo. De início, jogando assombrosamente, o Botafogo demonstrou sua grande superioridade e o extraordinário Abelardo, o maior forward de seu tempo, vazou seguidamente por três vezes as redes tricolores, sob o delírio da multidão eletrizada. Na fase final, Lulu, em uma defesa infeliz, marca o único ponto tricolor, mas o Glorioso não se impressiona e obtem mais três formidáveis tentos, por intermédio, dois de Décio e um do querido Mimi, consumando assim sua formidável e inesquecível vitória. No domingo seguinte, 2 de outubro, esmagando o Haddock Lobo por 11 x0, goals de Rolando 4, Abelardo 3, Décio 2, Lulu e Dinorah, o Botafogo encerrava com chave de ouro, essa fantástica temporada de 1910 no qual, dirigido pela competência de Pedro Rocha, foi verdadeiramente o campeão brasileiro.
— Pedro Martins da Rocha, irmão dos beneméritos Lulu e Carlito Rocha foi, realmente, um grande diretor de sports como, também, Joaquim Antonio de Souza Ribeiro, o presidente de 1910, foi um grande e dedicadíssimo dirigente.
— Décio, o nosso saudoso campeão, entrevistado anos mais tarde, em 1927, por Ralph de Palma, para "O Imparcial", disse: "Minha apresentação oficial deu-se come center-forward do glorioso S. C. Americano, por cujo primeiro team joguei toda aquela temporada de 1909. No ano seguinte, transferi-me para o Botafogo F. C., do Rio. A falange alvi-negra contava com imensa simpatia em S. Paulo. Dinorah e Lefévre tinham ido daqui reforçar suas fileiras e eu os segui. Vestindo a jaqueta preta e branca apareci ao lado de Abelardo, Mimi e Rolando e combatendo com eles na linha fiz-me primeira vez campeão, e fui a seguir campeão, cinco anos a fio. Mas de todos os campeonatos, o de 1910 pelo Botafogo, é o único de que me orgulho. Conquistado numa época em que o Fluminense se arrogava os ares de "papão" da Metropolitana, ele por todos os demais que depois obtive. Tendo-se originado uma rivalidade aguda entre botafoguenses e fluminenses, foi o campeonato carioca de 1910 que fez explodir pela primeira vez no futebol nacional as lutas de torcidas: "É Botafogo? lasca... É Fluminense? queima..." E por causa dessas frases os gerais se incendiavom de fúria e celebres barreiras vinham abaixo às taponas... "Bo-to-Bo-ta-Bo-ta... fôôôgo... o Botafogo acabou mesmo botando fogo no Fluminense. E tele-ia queimado de novo em 1911 se não fôra o ter se afastado da Metropolitana
— O dia mais alegre de sua carreira: Aquele em que o Botafogo esmagou o Fluminense por 6 x 1, conquistando o campeonato de futebol. Isso foi no returno, naquele campinho do Largo dos Leões, já desaparecido, mas lembro-me como se fôsse hoje... 1910!
- O lance que mais admira no futebol -- O arremate rápido e forte, encaixado com precisão!
Décio Vicari sorria. Brilhava em seus olhos aquela chama de energia com que ele outrora assustava as defesas, na hora de desferir o seu famoso chute de bico.
Respondeu, ainda, Décio às perguntas: "O clube de sua admiração? — Botafogo do Rio.
- O melhor jogador nacional? — Tres. Hugo, Rubens, Chico Netto Atualmente? — Friedenreich, ainda. Também gosto muito de Nilo. Os melhores estrangeiros que enfrentou? Os uruguaios: Varella, Piendibene, Bertone. E dos rapazes do Rio? — Nery, Lulú Rocha, o inglês Welfore".
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular Alceu de Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 82 de julho de 1949
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1906-1916 – 11º JOGO
11º jogo — S. Paulo Athletic x Botafogo. Data: 7 de maio de 1911 — Local: S. Paulo. — Resultado: Athletic, 2x1.
Às 2 horas da tarde, já se achavam repletas as arquibancadas do Velodromo, destacando-se o belo sexo que emprestava um aspecto encantador ao local, com suas toilettes chics e elegantes. Em cada semblante estampava-se a ansiedade pelo início do jogo. De um lado era uma jovem, admiradora do Palmeiras, que propendia pela vitória do Athletic; de outro, uma carioca, nervosa e inquieta, retorquia que o Botafogo ganharia, pois os ingleses foram batidos pelo Palmeiras e este havia sido derrotado pelo Botafogo. Puro engano! Ignorava, certamente, a partidaria do Botafogo, que a vitória deste sobre o Palmeiras, fôra simplesmente uma obra do acaso, pois no dia anterior o seu competidor havia infligido uma derrota de cinco goals a um aos ingleses. Há bem poucos dias, o Club Athletico Paulistano encontrava-se pela primeira vez com o Fluminense Football Club, resultando disso um belíssimo empate de 2 goals a 2.
Às 3 e 15 da tarde, os teams do Botafogo e do Athletic, acompanhados do referee, sr. Hutchison, davam entrada no campo, debaixo de uma prolongada salva de palmas. Coube o place-kick aos do Botafogo que, em magnifica combinação se aproximam dos backs Astbury e Hammond sendo repelidos imediatamente. Nova tentativa de Abelardo, Décio e Mimi, é coroada de êxito, sete minutos depois: Abelardo Delamare recebendo um passe de Décio, marcava o primeiro goal para o Botafogo, entusiasticamente aplaudido pela seleta concorrência. Os ingleses, percebendo que os cariocas estavam convencidos da vitória, desenvolveram um magnífico jogo de passe, conseguindo aproximar-se do goal sob a guarda de Coggin, onde Bradfield e B Boyes, obrigam C. Villaça a cometer um penalty-kick. Shoo-tado por Astbury, é varado pela primeira vez o goal do Botafogo. Recomeçado o jogo, Décio e Mimi procuram vazar o goal sob a guarda de Morrow, donde Astbury repele. Registra-se um corner-kick contra o Athletic, sem resultado. Hammond defende um shoot de Delamare e passa a bola a Roberts que, sem perda de tempo, remete a Colston, que shootando fá-la sair pela esquerda. Registra-se um corner contra o Botafogo, ocasionando um foul contra o Botafogo. Emanuel, Lauro e Mimi investem contra o goa! do Athletic, onde Decio dá um formidável shoot, defendido brilhantemente por Morrow. Décio não desanima: driblando admiravelmente shoota, mas, com tanta infelicidade, que a bola sai pela esquerda. Mimi e Lauro, que não perdem tempo shootam a torto e a direito, sendo as bolas sempre defendidas por Morrow que, numa dos investidas do Botafogo, provoca um incidente de pouca importância, ficando Morrow e Decío ligeiramente machucados, motivo por que o jogo foi suspenso por cinco minutos. Recomeçado o jogo, registra-se um corner a favor do Botafogo, sem resultado, indo a bola aos pés de Bradshaw que shoota saindo pela direita. Boyes e Roberts avizinham-se do goal do Botafogo, de onde Dinorah rebate brilhantemente. Registra-se um foul favor do Athletic. Robert e Banks, bem combinados, vencem Rolando e passam a bola Boyes que, num certeiro shoot, vara pela segunda e última vez o goa! do Botafogo. Roberts, Boyes, Bradfield e Banks, que haviam dominado por completo o team do Botafogo, avançam resolutamente, quando o juiz dava o sinal de off-side. Lulu shoota indo o bola ter aos pés de Boyes que, em belissima escapada, aproxima-se do goal do Botafogo perdendo uma magnífica ocasião de marcar mais um goal. Minutos depois, o referee dava sinal de half-time, com o seguinte resultado: Athletic, 2 goals. Botafogo, 1 goal.
Apesar do S. Paulo Athletic ter dominado por completo o team carioca, esperava-se a revanche isto é, que o Botafogo recuperasse o ânimo, aplicando aos ingleses uma derroto. Nada disto, porém, Decio e Delamare, bem combinados, aproximam-se do goal adversário, mas lá estava Astbury, que shootava rebatia, com belíssimas cabeçadas, todos os esforços dos incansáveis forwards. Mimi e Lauro, um tanto desanimados, investem novamente contra os ingleses, sem obter resultado, pois Astbury, tirando a bola passa-a a Colston que, por sua vez, a envia a Boyes. Boyes, perseguido por Dinorah e Viliaça, remete-a a Roberts, o qual dá um excelents shoot que é defendido maravilhosamente por Coggin. Banks aproveita um centro de Bradfield e shoota sem resultado. Em seguida, juiz puniu um dos jogadores do Botafogo, resultado um segundo "penalty-kick" a favor do Athletic. Astbury shoota, indo a bola ter na trave do goal, sem resultado. Novas peripécias de Mimi e Décio que, ora passando a Emanuel, ora a Benjamin, avizinham-se pela última vez do goal dos ingleses, sem contudo receber a recompensa de seus esforços. Do Botafogo, muito se destacaram Dinorah, Rolando, Delamare, Décio, Mimi e Villaça, que, mesmo enfermo, portou-se admiravelmente".
NOTAS — Foi este o nosso quadro: Coggin, Villaça e Dinorah; Rolando, Lulú e Delamare; Emanuel, Abelardo, Décio, Mimi e Lauro tendo nele estreiado Carlos Villaça, vindo America e que radicar-se-ia entre nós como um de nossos maiores defensores.
— O Athletic venceu o campeonato paulista de 1911 com destacada atuação
12º jogo: Botafogo x Palmeiras. — Data: 11 de junho de 1911 — Local: Rio. Resultado: Palmeiras, 4x2.
“Jornal do Comércio", assim descreveu esse jogo, o primeiro da taça "Salutaris": Uma concorrência talvez superior a 3.000 pessoas presenciou, ontem, no ground do Botafogo, um dos mais empolgantes matches que se tem efetuado nesta Capital. Em contraste com a tarde fria e humida, soprada por um vento cortante, tivemos um jogo belo e movimentado, no qual logo de princípio se notou, a par da grande superioridade do Palmeiras, a indecisão e falta de combinação do Botafogo. A chuva que caiu pela madrugada encharcou completamente o ground deixando-o em lastimável estado e improprio para o importante match. Pouco depois das 3,30 pm, acompanhados do referee, entraram em campo os footballers sendo recebidos por prolongada salva de palmas. Urbano, o captain dos paulistas, ganha o "toss' de Rolando e o Palmeiras decide defender o goal perto da rua, jogando a favor de fraca viração. Logo após a saída começa a cair uma garoa que, com algumas estiadas, prolonga-se pelo resto da tarde.
lrineu, center dos paulistas, dá o “kick-off”, dele não tirando vantagens. Os jogadores, emocionados, movimentam-se indecisos, conservando a bola pelo meio do campo entre habeis forwards adversários, sem que se note nenhum feito de importância. Lauro recebe um passe de trás, escapa e centra sem resultado. Outro tanto acontece a Mimi e o Palmeiras, pouco depois, organiza a sua primeira investida ao goal carioca, resultando um corner kick que não deu resultado. Não desanimam porém, os paulistas e 9 minutos após o "kick-off", Eurico, recebendo passe da esquerda, vaza pela primeira vez o goal carioca. Posta de novo a bola ao centro, ataca Botafogo carregando pela ala esquerda, porem, sem resultado, devido à ativa vigilância de Andrew e Salerno que, sempre colocados, cortavam com calma e precisão os passes e as intenções dos forwards cariocas. Lauro, numa cabeçada infeliz recebe um "kick" no rosto, sendo medicado na assistência do clube. Recomeçada a luta, após 5 minutos deste incidente, continua o Palmeiras atacando sempre. Como resultado, nota o juiz um corner contra os cariocas, que é perdido por Andrew. Cabe, a vez, ao Botafogo atacar e seus forwards levam a bola pela ala direita até o meio do campo adversário, onde Rolando apodera-se dela, dribla os adversários e shoota a goal. A curva descrita pela bola é acompanhada com ansiedade por milhares de espectadores. Rachou, a última barreira dos paulistas, pula para ver se num último arranco ainda salva o seu goal, porém a bola cobrindo-o vai aninhar-se na rede, registrando o primeiro goal para o Botafogo.
A resposta dos paulistas não se fez esperar e, como resultado, Coggin faz boa defesa escorando belo shoot de Deodoro, a pequena distância. Devolvida a bola aos forwards do Botafogo, estes organizaram uma investida pelo centro, não dando, porém, resultado, devido a um "off-side" de Mimi. Salerno tira o "free-kick" fazendo passe a Deodoro, este escapa e centra. Villaça perdendo o shoot, ocasiona um comer que bem tirado por An-drew é melhor escorado por Octavio Egydió, que com bela cabeçada, marca sob geral ovação, o 2º ponto para a equipe alvi-negra de S. Paulo. Cinco minutos depois estava o match novamente empatado com um magnífico goal de Mimi. Abelardo escapa com a linha e shoota, e Rachou defende, e rebaten-o manda a bola para a frente de Mimi que não exita em enviá-la à rede com certeiro kick rasteiro. Um minuto mais e termina o primeiro half-time, estando, no intervalo, as equipes empatadas com resultado de 2x2.
O jogo, que no primeiro tempo estava mais ou menos equilibrado, notando-se pequena superioridade no Palmeiras, mudou por completo, no segundo tempo, ficando o Botafogo completamente desnorteado diante da estupenda combinação dos forwards do Palmeiras. O jogo neste half-time resumiu-se num contínuo ataque do Palmeiras, cujos forwards auxiliados pelos halves, punham o goal sob a guarda de Coggin em constante perigo. Uma ou outra vez os cariocas conseguiam um ataque às barras sob a guarda de Rachou, porém Urbano e Salerno, sempre bem colocados, desfaziam calma e facilmente a fraca e desorganizada combinação dos forwards do Botafogo. A saída coube ao Botafogo, que não se aproveitou dela. O juiz nota dois off-sides, um de Emanuel e um de Deodoro, tiradas sem resultado e logo em seguido, o Botafogo leva a bola em passes entre Mimi e Lauro, pela ala esquerdo. Na linha de gool, Lauro centra a bola atravessa o campo e perde-se no ala oposta, sem ser aproveitada. Solemos numa defesa infeliz, perde o kick, motivando um corner tirado pelo half Rolando, que bate na trave e volta ao campo. Abelardo rebate, porém o bola passa longe do gool.
Tirado o goal-kick, os forwards paulistas, em belo combinação, levam a bola em rush até a área de penalty adversário, onde Godinho shoota violentamente. Lefévre rebate, porém com infelicidade e a bola, roçando em seu pé, desvia-se e vai ter à rede sob demorados aplausos da assistência emocionada. Um minuto mais e mais um goal feito por Eurico com formidável kick, a grande distância. Haviam passado apenas 10 minutos de jogo, a superioridade do Palmeiras era agora notável. Depois da marcação desses dois pontos, que deram a vitoria aos paulistas, os jogadores do Botafogo esmoreceram e desanimaram por completo. Suas investidas não passavam do meio do campo, ao passo que o seu adversário sustentava continuos e cerrados ataques, magnificamente dirigidos sobre o goal guardado por Coggin. O resto do tempo passou-se sem maiores incidentes, havendo um ou outro kick a goal e alguns corners e belas defesas que não alteraram o resultado do belo match que terminou com o seguinte score: Palmeiras, 4 goals. Botafogo, 2 goals. O glorioso team do A. A. Palmeiras, que ontem obteve a magnifica vitória sobre o seu competidor, jogou acima de qualquer elogio. A combinação de sua linha de forwards foi admirável. Tanto na defesa como no ataque não há nomes a salientar. Outro tanto não podemos dizer do seu adversário, onde apenas salientamos Mimi e Villaça. Referee: Victor Etchegaray - Liinesrnen: Raul Guimarães e Arthur Cabral. Teams rivais:
"Palmeiras": Rachou, Urbano e Salerno; Andrew, Collet e O. Egydio; Godinho, Whateiy, Irineu, Eurico, Deodaro.
"Botafogo": Coggin, Villaça e Lefévre; J. Couto, Lulú e Rolando; Emanuel, Abelardo, Brisleâ II, Mimi e Lauro."
NOTAS: — O Botafogo já não contava com o concurso de Décio Viccori, que voltou a residir em S. Paulo defendendo as côres de seu antigo club, o Americano. — Improvisou-se centro avante, Antonio Luiz dos Santos Werneck, o grande center-half de 1907, que de há muito não jogava e que não querendo ver o seu nome nos jornais, combinou com os cronistas esportivos curioso nome de "Brisley II".
— É interessante reproduzir-se aqui, como os programas impressos pelas águas minerais ""Salutaris" apresentaram nossos bravos defensores:
"Emanuel, campeão (1906, 1907, 1910) — Estreou em 2 de junho de 1906 v. F. F. C.— Leve, ligeiro, habil, voluvel.
Abelardo, campeão (1909, 1910) — Estréa em 28 de junho de 1908 v. 2º T. do A.F.C., primeiro forword do team, vaza qualquer goal-keeper - inegualável, assombroso.
Antonio, campeão (S. Paulo) — Estréa em 16 de junho de 1907, no 1º T. v. P.C.C. conhecedor profundo do "Association".
Mimi, campeão (1909, 1910) — Estréa em 31 de maio de 1908, no 2º T., R.F.C. — pequeno e forte — corajoso; tem a facilidade de multiplicar-se — cavador, ligeiro e veloz.
Lauro, campeão (1909, 1910) — Estréa em 26 de junho de 1908 v. A.F.C. Centra admiravelmente — veloz e ativo — combina muito bem com Mimi.
Rolando, campeão (1906, 1907 e 1910) - Estréa em 28 de maio de 1905, v. Colégio Militar. Calmo, infatigável — extraordinário as vezes.
Lulú, campeão (1910) — Estréa em v. B. A.C. Alto, elegante, é o baluarte inespugnável do Botafogo — tem um raio de ação de 10 m.
Juca, campeão (1909, 1910) — Estréa 14 de junho de 1909 v. 2º T. do F.F.C — half esplendido — perseverante e tenaz, sendo considerado o terror dos extremas.
Lefevre, campeão (S. Paulo-Rio, 1910) - simpático, delicado, destro, forte na defesa.
Villaça - Estréa em 14 de maio de 1911 — novo no clube; contudo é de uma dedicação rara — excelente full-back, ligeiro, seguro e infalível.
Coggin, campeão (1909, 1910) — Fleumático, agil, desenvolto, correto. Estréa em 2 de junho de 1907, v. 2º T. do F.F.C. - É a última e difícil barreira.
Os campeonatos referidos são, quer de primeiros, quer de segundos quadros.
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular Alceu de Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 83 de agosto de 1949
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1906 A 1910 13º E 14º JOGOS
13º jogo
O histórico bofetão de Abelardo Delamare em Gabriel de Carvalho naquele Botafogo x America realizado em 25 de junho de 1911 em nosso campo, colocara o Botafogo fora do Liga. De fato, reagindo a pesado insulto do player rubro que já vinha provocando Flavio Ramos, Abelardo aplicou-lhe um dos mais famosos bofetões que conhece a história do futebol carioca, seguindo-se grande conflito. Sem ouvir o Botafogo que solicitára fossem os fatos devidamente apurados, em menos de 48 horas, a Metropolitana aplicou-lhe a pena de advertência e suspendeu por um ano nosso inegualavel atacante.
Sentindo seus brios ofendidos com o que considerava uma grande injustiça e uma iníquo perseguição, o Botafogo reagiu a altura, desligando-se da Metropolitana, em gesto desassombrado e nobre, sem medir consequências que dele adviessem, recebendo a irrestrita solidariedade de seus extraordinários defensores, os melhores da cidade, que preferiram ficar no ostracismo, mas à sombra da gloriosa bandeira alvi-negra, a mudar de camisa e a ter os atrativos de um campeonato.
Este gesto edificante é unico no vida do futebol carioca. O Glorioso, sozinho, sem rivais à altura de seu renome, não perdeu um único de seus defensores que eram, repetimos, os mais completos jogadores da cidade, quiçá do Brasil. Formou-se aí a mística botofoguense que faz do Glorioso um club excepcional, diferente de todos os outros, pela sua fibra, coragem, estoicismo e espírito de luta e sacrifício. Perdemos, certamente, a ocasião de conseguir um tri-campeonato, mas ficamos de cabeça erguida, não aceitando o que considerávamos uma afronta a nossos brios. Nessa emergência perigosa recebemos a reconfortadora e irrestrita solidariedade de três bravos clubs paulistas que merecem nossa imorredura gratidão: a A. A. das Palmeiras, nossa tradicional e grande amiga que, em um gesto parecido, também se desfiliára e o S. C. Americano e o S. C. Germania que desafiando todas as proibições da Liga Paulista vieram bravamente enfrentar-nos, trazendo seus primeiros e segundos quadros, em uma inovação que nunca mais foi reproduzida.
Para o grande decepção da Metropolitana já a 23 de julho, a imprensa da época odiava, nestes termas, a visita do glorioso Americano, uma das mais puras glórias do futebol brasileiro e a constituição de nosso quadro: — "Trata-se de um encontro entre o Campeão do Rio de Janeiro e o provável Campeão paulista. Um, já célebre pelo valor e pela sua teimosia, digamos mesmo nevrose de vitória acha-se em, apurado training, em verdadeiro "pé de guerra", desde o momento em que, com a sua retirada Liga, declarou-se adversário cordial dos clubs filiados. O outro, cujo team passou por uma frutuosa reforma, deve o leitor lembrar-se que só foi derrotado uma vez em S. P: e que sua linha de ataque vale bem a formidável defesa formada por ltaborai, Menezes e Hugo de Morais. Acrescente-se a isso o mais o atrativo imaginado pela diretoria do Botafogo, mandando vir os dois teams daquela sociedade" — "Abelardo, o maravilhoso forward, não podendo jogar neste macth vai ser substituido pelo Sr. Raul de Carvalho. Outrora seria Flavio o suplente; mas o tradicional forward do Botafogo, o antigo soldado cujo nome aparece com o primeiro gesto de vida do seu club é preterido como uma coisa inútil. Querem uns que ele seja decadente; porém Flavio ainda não merece o epiteto. Ressente-se, é certo, de training e como tal perdeu aquela desenvoltura que o fazia excepcional e temível, mas, nos primeiros dias em que ensaiou para jogar contra o Palmeiras, ressurgiu nele um pouco dessa agilidade imprescindível no jogo de foot-ball.
A mesma imprensa assim descreveu o nosso:
13º jogo — Botafogo x Americano. Data: 23 de julho de 1911 — Local: Rio. Resultado: Americano 3x2.
"Quando daqui dissemos que o match de domingo seria um combate entre herois, adestrados na luta, não nos enganavamos pois sabiamos que o Botafogo, com os teams primorosamente formados e o Americano as suas equipes disciplinadas e aguerridas iriam entreter uma peleja ingente, jamais vista nos nossos grounds. Desde o inicio do combate até o seu final, anciosamente esperado por todos que se interessam ou deixam-se levar por um impulso de simpatia, para a fado deste ou daquele team, ambos foram fortes, testemunhando em cada golpe sua destreza e a sua proficiência. Mas (leva-nos a justiça a declarar desassombradamente) a rapaziada do tem alvi-negro portou-se com tanta heroicidade, com tanto ardor e coragem, que só mesmo uma ingratidão da sorte poderia roubar-lhe a vitoria de ontem, conquistada palmo a palmo, com gigantesco esforço e inaudita galhardia.
Aos embates do Americano, o Botafogo antepunha uma barreira sólida onde vinham se quebrar os seus golpes violentos. Eram Lefévre, Villaça e Baby zelando cuidadosamente por aquele goal que necessitava ficar inviolável... Entretanto, depois de uma liça herculea, o Americano conseguiu vazá-lo três vezes... A sorte não quis dar a mão ao team alvi-negro, porque este lutava desde o princípio contra ela...
As 3,15 da tarde, Haroldo Coas, o juiz corretissimo, chamou as teams à luta e alguns segundos mais uma poderosa carga do Botafogo chamava atenção da defesa inimiga. Mario e Raul, os estreantes, querem mostrar que são bem dignos de merecerem a confiança do seu club. Em belíssima combinação, cinco minutos depois do kick-off, abriram o score do Botafogo, em um goal indefensável, porque, a um shoot vigoroso de Emanuel, Mario se atira sobre Hugo de Moraes, resoluto e impavido, entrando com ele e a bola até junto da rede protetora. Voltando a bola ao centro, o Americano dá a saída: Décio e Otavio investem de rijo sobre o goal do Botafogo; mas Lulú tinha feito protesto de impedir o seu antigo companheiro de se salientar na pugna e apodera-se da bola, devolvendo-a aos seus forwards. Nessa ocasião o jogo emociona os arquibancadas; os forwards americanos multiplicam-se e combinam-se; os half-backs do Botafogo redobram de atenção. Seguem-se alguns minutos de luta perfeitamente equilibrada e finda o primeiro half-time.
No segundo tempo, começado às 4 horas em ponto, a mesma luta perdura e a mesma vontade de vencer existe em cada um dos teams adversários. A um momento de desatenção de Lulú, Décio escapa e shootando quase sem querer, devagar, preguiçosamente, marca o 1º goal para o seu time.
A resposta que merecia este feito depressa se faz sentir; Rolando avança ajudado por Villaça; Lulú os anima e os estimula, até que Raul, tomando a bola passada por Mario investe e shoota inteligentemente de vez, para que Hugo não a visse e nem pudesse defendê-la ... Era a 2º goal do Botafogo. Nessa ocasião o luta atinge ao seu mais alto grau de interesse; vê-se o Americano empenhar todas as fôrças para tirar a diferença que tem sobre ele o Botafogo e este dispensar os maiores esforços pára assoberbar de vez o adversário. Então os forwards do Americano atacando com vontade e perseverança, atravessam a poderosa tinha de halves do Botafogo; Décio, um tanto atrazado para se livrar de Lulú shootou violentamente. E uma bola rasteira entra pela esquerda do goal defendido por Baby, sem que este possa chegar a tempo de retê-la, tendo assim o Americano igualado o seu score ao do Botafogo. Neste pedaço último da luta, de frisante igualdade de forças, reconhece-se a superioridade do jogo empregado pelos dois fortissimos rivais. E, se faltando apenas um minuto para terminar o 2º half-time, J. Pedro conseguiu fazer um goal garantindo a vitória do seu club, foi porque Baby ao defender a bola shootada por Décio, escorregou e caiu na mesma ocasião que aquele jogador, com a boa cabeçada, introduzia ó bola no goal.
Terminava, assim, a grande luta em que se bateram dignamente, com delicadeza lhaneza de trato, os dois clubs amigos que ontem fizeram as delícias da numerosissima assistência, onde o elemento feminino sobressaia pela sua graciosidade e estimulava contendores com o seu nervoso aplauso. Resultado final: Americano, 3 goals x Botafogo 2 goals.
Todos os jogadores se portaram como verdadeiros herois e perfeitos cavalheiros. No Americano, salientaremos Menezes, Itaborai e Hugo, sendo que o ultimo revelou-se, entretanto, um abusador de "driblíngs” que degeneraram, às vezes em "carrings". No Botafogo, não fazemos seleções: enviamos-lhe nossos cumprimentos pelo êxito da festa e felicitações pelo brilhante resultado que embora desfavorável para si, confirmou o seu valor de campeão.
Os teams rivais:
Americano: Hugo: Menezes, Campos, Arriza, Oscar; Rufin, Otavio, Décio, Alencar, J. Pedro.
Botafogo: Baby; Lefévre, Villaça; Rolando, Lulú, Juca; Emanuel, Raul, Mario, Mimi e Lauro.
O JOGO DOS SEGUNDOS TEAMS
Nesse jogo coube tombem a vitória ao Sport Club Americano, que venceu o seu valoroso adversário por 4 x 3. Os goals foram feitos em ardem cronológica na seguinte disposição:
1º half — 1 h 36 — Hasche (Botafogo) -- 1 h 41 Dante (Americano); — 1 h 4' - Damasceno (Botafogo) — 1 h 53 -- Paula e Silva (Botafogo).
2º half -- 2 h 18 — Dante (Americano) ; 2 h 28 — Dante (Americano) - 2 h 45 – Danta (Americano).
O jogo correu regularmente, estando o Botafogo em inferioridade devido à falta de seu goal-keeper Coggin, substituido à último hora por Dinorah que, apesar da grande vontade que empregou e o colossal esforço empenhado, não podia defender as constantes investidas do adversário".
NOTAS — Foi este o nosso segundo quadro: Dinorah; Dutra e C. Vianna, Cesar, Ademaro e Meira Lins; Rasteiro, Damasceno, Hasche, Paula e Silva e Antonio Leal.
— Segundo o registro de jogos do club, nossos dois pontos foram marcados por Mario Fontenelle, o jovem atacante campeão pelo nosso 2º quadro, que fez uma estréia brilhantíssima.
— Nosso arco já estava confiado a Alberto Alvarenga, o Baby, como Villaça, vindo do América e que foi o maior arqueiro carioca da época.
— Não queremos encerrar estas notas sem umas palavras sobre a vida brilhante e efêmera deste glorioso S. C. Americano, que foi tão nosso amigo na adversidade. Fundado em Santos em 1903, mudou-se mais tarde para S. Paulo cujo campeonato da Liga Paulista passou a disputar em 1907. Alcançou o apogeu de 1911 a 13, sendo bi-campeão paulista de 1912-13. De seu formidavel conjunto faziam parte azes do quilate de Hugo, Itaboraí e Menezes, o mais famoso triângulo do época, Otavio Bicudo, o grande Décio, Irineu Malta, Eurico Menedes, Alencar Monte, Juvenal Campos e muitos outros.
Deu o glorioso Americano ao Brasil as duas primeiras vitórias em jogos internacionais no interior e no exterior. A primeira foi obtida em S. Paulo, em 13 de agôsto de 1911 contra o poderoso scratch uruguaio que nos visitou, do qual faziam parte os famosos irmãos Bertone que aqui se radicaram, defendendo as côres do mesmo Americano.
Com o mesmíssimo quadro que enfrentára o Botafogo, o Americano abateu sensacionalmente seu poderoso adversário por 3 x 0, tendo o terrível Décio marcado dois goals e Alencar um.
Em 1913 pela primeira vez um quadro brasileiro ousadamente excursionava ao exterior, ao Prata, e esse quadra era do bravo Americano, reforçado apenas por dois atacantes do Ipiranga, Formiga e Friedenreich. Estreando em 10 de agôsto em Buenos Aires, no campo do Racing, o Americano para gaudio nacional abateu por 2 x 0 forte selecionado argentino, goals lindamente marcados por Décio, o primeiro, e por Friedenreich, o segundo. Foi este o inesquecivel conjunto vencedor: Hugo; Menezes e Chico Neto, A. Bertone, J. Bertone e Thiele; Friedenreich, Juvenal, Décio, Alencar e Formiga.
Voltando ao Brasil após tão brilhante excursão, vítima de terrível crise interna, sosobrou inesperadamente, mas o nome glorioso do S. C. Americano ficará indelevelmente gravado na memória dos desportistas brasileiros por esses feitos imortais aos quais ligou seu nome Décio Viccari, o nosso grande campeão.
9.°
14º jogo: Botafogo x Germania. — Data: 6 de agosto de 1911. Local: Rio. Resultado: Botafogo, 3x2.
Após o Americano, recebemos a visita do valoroso Germania, cujo jogo foi assim descrito pelo "Jornal do Comércio" (da tarde): "A vitória do campeão — Lulú - Abelardo. — Apesar do triste dia de ontem, realizou-se com o assistência seleta de mais de 2.000 pessoas, o grande match interestadual em que se bateram denodadamente o Sport Club Germania e o Botafogo Foot-Ball Club, campeão do Rio de Janeiro.
A vitória deste último, que daqui auguramos porque conheciamos fartamente o seu valor, foi de incontestável merecimento, e alcançado debaixo de todos os ditames de justiça, tendo sido ratificada pela opinião de um juiz que tem se imposto pela sua rara aptidão e indiscutivel imparcialidade. Depois de 75 minutos de um combate gigantesco onde a bravura de um team contra-balançava com a galhardia e coragem do outro, venceu o mais forte, sem que de leve esta vitória pudesse deprimir o leal e correto adversário representado pela fidalga rapaziada do Germania. E o público que assistiu a esta luta titânica, que viu passo a passo, que acompanhou minuto a minuto, todas as suas peripécias e lances, assim o confirmou, pelo seu constante e entusiástico aplauso. Palmas febricitantes, gritos de louvor e de contentamento, chapéus e leques agitados com delirio, era o espetáculo que se assistia logo depois de um goal marcado, sem que a menor discordância entre espectadores perturbasse a saudação unisona que saia de todas as bocas.
O jogo dos primeiras teams: — Precisamente às 3,20 Borgerth, o referee intransigente, dá o sinal de saída e a bola impelida por Mario vai ter aos pés de Abelardo que, ontem disposto e alegre, escapa por entre os half-backes inimigos, procurando a viva força marcar o primeiro ponto para o seu clube.
Mas, esbarra deante de Vaz Porto e Niel que inutilizam os seus esforços, apoderando-se o primeiro da bola e passando-a ao seu companheiro que, rapido, atira-a, entregando-a aos seus forwards. Então o ataque do Germania se faz sentir, despertado por este golpe do inimigo e numa vingativa investida faz recuar a assombrosa barreira constituida pelos halves do Botafogo. Villaça, entretanto, calmo e refletido, não se deixa iludir pela rapidez da ataque; espera os forwards do Germania para roubar-lhes a bola, o que faz com destreza e habilidade repelindo-a para bem longe. O Botafogo insiste, agora: Mario, Raul e Abelardo investem, guiados e sustentados por Lulú; a defeso do Germania retrocede diante do brusco ataque do Botafogo; Abelardo desvencilha-se de Vaz Porto e, recebendo frente uma bola que lhe passa Raul, shoota-a inteligentemente, conseguindo marcar o goal para o seu club (3,30).
Volta a bola ao centro. O Germania da a saida resoluto, procurando ultrapassar halves inimigos; mas é ainda Lulú o obstáculo desta carreira do adversário que o impossibilita de prosseguir. Apoderando-se da bola restitui aos seus forwards que logo a perdem, mas Juca que ontem também esteve feliz, vigia a extrema esquerda que pretende es apar pela ala e embaraçando-lhe os passos torna-lhe a bola, passando-a a Lulu. Esse avança alguns metros e shoota violentamente indo a bola, depois de vencer a resistencia oposta pelas mãos do goal-keeper, introduz --se na rede para marcar o 2º goal do Botafogo (3.35). O que seguiu-se depois deste feito que bem mereceu o frenético aplauso das arquibancadas, excede a qualquer descrição que procuremos fazer. O Germania ainda sob a pressão da violência das investidas do Botafogo e da aclamação entusiástica das arquibancadas, precipita o jogo; mas recuperando aos poucos a reflexão, combina bem e em belos e acertados passes, vai até o goal do Botafogo para retroceder vencido ante a defesa brilhantemente feita por Lefévre e Baby. O jogo tem lances emocionantes durante esses momentos; ora é Lulú salientando-se no campo pela sua elegância e correção; ora é Guilherme Baungartner ameaçando o goal inimigo com os seus bonitos e perigosos centros. Proximamente a findar o 1º half-time, o Germania, concentrando o ataque, atira-se de rijo sobre a defesa inimiga, procurando a todo transe eliminar a vantagem do seu digno contendor. Lefévre e Baby não esmorecem um só instante; têm confiança no seu valor e na sua maestria. Entretanto, a uma investida mais forte dos forwards germânicos, o in-side right Bungner shoota com boa direção, marcando um goal para o Germania, debaixo de estrondosa ovação dos assistentes. Pouco depois terminava o 1º half-time.
No 2º tempo, que serviu para mostrar o entrainement dos dois rivais, pois apesar do estado lastimável do campo e do vigor da luta nenhum deles se mostrava enfraquecido e cansado, as mesmas ocasiões difíceis e perigosas se apresentaram, para que ambos os contendores testemunhassem a suao galhardia. No princípio, o Germania atacou com constáncia, porém vimos os seus ingentes esforços se paralisarem a frente de Baby que, sempre atento, guardava e, garantia o seu posto de honra. Neste half-time, Abelardo, o maravilhoso forward, aproveitando-se de uma falsa rebatida de Niel, quando defendia um comer, marcou o 3º goal, com shoot alto e forte, sendo o mais belo do dia; e o Germania, em revanche, consegue o seu 2º e último ponto, um kick dado por Fried numa bola quebatera na trave e que Baby não pudera defender.
Às 4,20 o juiz, a quem não podemos poupar elogios, dava o match por terminado com a brilhante vitória do Botafogo, consagrado pelo público de ontem o mais valoroso team dos campos cariocas.
Os segundos teams
Embora sem grande interesse, foi entretanto o jogo dos segundos teams cheios de peripécias e lances que emocionaram por vezes a assistência.
0 Botafogo que logo em começo demonstrou a sua superioridade, venceu o seu digno adversário pelo score de 2 a 0. Os goals foram feitos, um por Hasche e outro por Nilo, ambos no 2º half-time. Estrearam neste team, Raul Rodrigues, Carlos Rocha e Alvaro Werneck. O primeiro que, folgamos em registrar, é seguro nas suas defesas e tem um shoot violento, próprio de full-back, jogou ontem muito bem, defendendo bons shoots do inimigo.
Carlito, o goal-keeper, já conhecido no Botafogo como perfeito conhecedor de sua posição, apanhou boas bolas ontem e manteve a inviolabilidade do seu goal, sendo por este motivo alvo de significativa ovação. Alvaro tem qualidades excelentes de half de ala e esteve feliz também.
O 1º team, como se verá, entrou em campo desfalcado de Mimi e Rolando, sendo aquele substituido "pelo out-side atual do team, Raul de Carvalho, que teve como suplente o seu antigo jogador Emanuel, ontem um prestimoso auxiliar que muito contribuil para o êxito da vitória.
Os teams adversários:
GERMÂNIA: Gronau, Niel, Vaz Porto II; Kirschner, Gerhart, Vaz Porto I; Amstetter, Bungner, H. Gerhart, Fried e Guilherme. BOTAFOGO — Baby, Lefévre, Villaça; Juca, Lulú, Edgard; Emanuel, Abelardo, Marrio, Raul e Lauro.
Os foot-ballers paulistas embarcaram pelo noturno de 6 horas, sendo nesta ocasião feita pelos sócios do Botafogo grande manifestação de carinho e trocados amistosos brindes.
NOTAS — Emanuel Sodré, o magnífico extrema defensor do club desde sua fundação, ainda em plena forma, despediu-se das canchas nesse dia, para dedicar-se totalmente a seus estudos jurídicos. E hoje é um dos mais brilhantes e cultos desembargadores do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, o que não o impede de comparecer a todos os jogos do seu Glorioso, revelando que jamais esmorecerá o seu amor ao gremio que fundou e que tão bravamente defendeu. Também defendeu o Botafogo pela última vez o valoroso Carlos Lefévre pois, retornando a S. Paulo, voltou ao Palmeiras, cujas cores defendeu brilhantemente até 1916 quando se aposentou. Integrou-se definitivamente em nosso quadro principal, tendo jogado de half, Edgard Dutra que viria a formar com Villaça uma das mais formidáveis parelhas de backs que já possuiu o Botafogo. Edgard é, por assim dizer, o chefe esportivo desta grande família Dutra, tradicional defensora do Glorioso, em todas as épocas e que já deu ao club nada menos de dez defensores: os cinco irmãos Edgard, Antonio, Djalma, Osmar e Clovis Soares Dutra seus sobrinhos, os quatro irmãos Alkindar - Adalcy e Alternar Dutra de Castilho e Alfredo Soares Dutra Filho, keeper atual de um dos nossos quadros de water-polo.
— Pela primeira vez exibiu-se no Rio um jovem, então desconhecido e que futuramente seria o celebre e terrivel "El Tigre": Friedenreich, que brilhou marcando os pontos do seu club, pois que o primeiro, segundo outras descrições, foi também de sua autoria.
E, fato curioso, em sua enorme carreira encerrada unicamente em 1935, Friedeereich nunca mais teve ocasião de enfrentar Botafogo.
— Foi este o nosso segundo quadre vencedor do Germânia: Carlito, C. Vianna e Rodrigues, Alvaro, Adernaro e Meira – Nilo, Rasteiro, Damasceno, Hosche, Silva e Antonio Leal.
- Pela primeira vez, coisa que poucos sabem, defendeu as cores alvi-negras em jogo organizado, atuando com grande destaque no goal, como se vê da descrição transcrita, figura gigantesca de Carlos Martins do Rocha, o Carlito, um dos maiores, senão o maior dos botafoguenses, dedicado até quase a loucura à defesa de nossa bandeira.
Carlito, entretanto, não permaneceu no goal, pois já em 1913 aparecia como o seguroa zagueiro do nosso segundo quadro, firmando-se em 1917 como o magnífico e center-half de nosso quadro principal, na qual tornou-se conhecido como um sucessor de seu irmão, o magistral e grande Lulú Rocha, figura exemplar de desportista e de botafoguense.
- O S. C. Germânia, hoje Pinheiros, não pratica mais o futebol, foi campeão da Liga Paulista em 1906 e 1915.
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular Alceu de Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 85 de outubro de 1949
1906 A 1910 17º JOGO —
Botafogo x Americano. Data: 5 de Novembro de 1911. Local: Rio. Resultado: Americano 3 x 0.
Foi assim descrito pela imprensa carioca da época, este encontro, o último efetuado em nosso campo de Voluntários, cujo contrato de arrendamento expirou logo após, não tendo sido renovado pelo proprietário: "Alcançou o mais brilhante sucesso o match que, em revanche, foi ontem jogado no campo do Botafogo, à rua Voluntários da Pátria, 459 para gaudio dos que pretendiam assistir a uma luta bonita e bem disputada, cousa que há muito tempo não tinhamos o prazer de registrar. Assim, deve-se aos dois poderosos rivais de ontem, toda a gratidão pela brilhante festa sportiva que logramos presenciar e, particularmente, às duas respectivas diretorias que, a despeito de uma guerra traiçoeira praticada no intuito de fazê-las recuar no seu grande desideratum, não se deixaram vencer por inimigos de fácil conquista.
Parece, segundo contam os rapazes do Americano, que o derradeiro golpe fora lançado ontem contra o Botafogo pelo Sr. Luiz Fonseca, quando, à última hora, fora em pessoa à Estação da Luz, pedir que os rapazes não desrespeitassem uma sua ordem anterior. A todas as impetrações do presidente da Liga, antepôs o ilustre presidente sr. Henrique Vanorden, o sério compromisso que tinha assumido com a administração do Botafogo, e, portanto, não sabia transgredir na sua palavra, mesmo que fosse preciso a separação do seu clube da Liga Paulista.
O jogo
As 4 horas da tarde, mais ou menos, deram entrada no campo, já cercado por seleta assistência e sob urna prolongada salva de palmas, os dois teams rivais. Dirigia-os, o conhecido sportman Alberto Borgerth, ex-sócio do Fluminense F. C. Às 4,17 deu-se o kick-off, cabendo a saída ao Botafogo que, tentando um ataque cerrado, perdeu logo a bela, sendo rechassado pelo terrivel adversário. Essa revanchie, porém, não logrou também êxito: Dutra e Villaça vigilantes, apoderam-se da bola, restituindo-a aos forwards do seu clube. E neste vai e vem, ficou o jogo indeciso, ora tentando a bola para o Botafogo, ora para o Americano. Mas, de repente, Lulu, ontem encarregado de vigiar Décio, captain do team como era, resolve estimular a sua gente para o ataque e ele mesmo iniçia as investidas contra o goal do Americano, brilhantemente defendido por Hugo de Moraes. Foi uma bela ocasião. Os forwards do Botafogo investem de rijo; os halves do Americano, entre os quais se salientava Bertoni I., center, ofuscando os seus companheiros, notadamente seu irmão Bertoni II, repelem a linha que se prontificava a marcar o seu primeiro goal. Entretanto, os avantes do Botafogo persistem nas suas investidas e formidável ataque define-se; Hugo de Moraes fazia prodígios safando-se com habilidade do meio de 3 e 4 forwards que carregavam sobre ele. Neste half-time, defendeu ele 14 bolas, sendo todas elas, de shoots violentos e de boa direção.
O jogo manteve-se equilibrado; não se podia dizer mesmo que este ou aquele team sobrepujava o adversário; mas houve ocasião perigosissima para o Americano, como a escapada de Pedro Paulo, o rush de Mario, o shoot violento de Lauro e diversos outros pequenos ataques da linha do Botafogo que pareciam terminar com a marcação de um goal para os fluminenses. Nesse primeiro half, a linha de halves do Botafogo jogou magistralmente e Lulú, nem um minuto siquer, deixou de vigiar o centro adversário. Edgard e Villaça, pelo Botafogo; Menezes e Itaborahy pelo Americano; confirmaram os seus fóros de jogadores de defesa, tendo nesta dificil missão, empregado ingentes esforços e atilada observação aos forwards que se•aproximavam do goal, às vezes. sem serem previstos. Pouco depois, às 4.55, terminava o 1º half-time com o resultado de 0 a 0.
O 2º half-time foi mais movimentado. Tendo o Americano saido com alguma precipitação, perdeu a bola (5.10) Lulú apoderou-se dela e entrega a Lauro; Bartoni aproxima-se, auxilia o seu irmão consegue tirá-la dos pés de Lauro e, com grande shoot, impele-a para a frente. Eurico, por acaso completamente livre, alcança-a, shoota alto; Cesar, não contando que a bola pudesse atravessar a barra, não a defende. O shoot, porém, violento devido a pequena rajada de vento muda de direção e a bola intromete-se pelo goal, registrando-se o primeiro ponto dos Americanos.
Voltando a bola ao centro, o Botafogo dá a saída, mas não consegue levar a bola adiante da linha dos halves inimigos. Os halves auxiliam a avançada do Americano e esta, tendo Décio à frente vai aos poucos conquistando o terreno conseguindo se aproximar do goal do Botafogo. Villaça defendendo uma bola, arremessa-a para a frente do goal; Décio a vanguarda da linha, defronte à barra do goal, aproveita-se da oportunidade feliz e vasa pela segunda vez o goal inimigo.
O Botafogo, despertando à vista do ataque brusco que organizara o adversário, resolve atacar por sua vez e atira-se valentemente sôbre a defesa do Americano. Hugo de Moraes, entretanto, era prodigioso e extraordinário para deixar-se iludir facilmente. Inúteis foram todos os esforços, todas as charges, todos os expedientes que uma boa experiência lembre nessas emergências; ele, agil como um gato, desembaraçava-se galhardamente dos atacantes e arremessava para muito longe a bola cubiçada. O Americano continuava na ofensiva; os seus forwards não se descuidavam um instante siquer, embora a linha de halves do Botafogo estivesse sempre atenta. Um goal mais registrou-se nesse 2º half-time fechando assim, o score do clube vencedor e logo depois, um off-side desesperançava as muitas simpatias do club campeão do Rio de Janeiro, que já contavam com um ponto para o Botafogo. A imparcialidade, a competência de A. Borgerth, corretíssimo juiz, põe a coberto a sua resolução de qualquer analise que tentassemos fazer deste incidente. Como fato acidental ocorreu ainda a retirada de um jogador do Americano, o sr. José Pedro, ligeiramente incomoda-o, talvez devido ao calor de ontem. A solicitude com que foi socorrido pelos diretores do Botafogo, tornou-o completamente bem disposto. Não havendo mais nada de extraordinário a registrar, o jogo terminou com a vitória do Sport Clube Americano por 3 goals a 0 do Botafogo, e na maior calma possível. Todos os jogadores portaram-se com galhardia: Eurico Mendes, fez-se notar pelo muito amor que tem ao corpo e Hugo de Moraes, pela incomparável ligeireza e segurança de defesa, várias vezes ontem empregadas. O goal-keeper do Botafogo, Cesar Gonçalves, em substituição a Baby, não desmentiu as suas qualidades já demonstradas em matchs do ano passado. Pedro Paulo, já conhecido do leitor, teve ocasião de se revelar excelente jogador de ataque.
Os teams rivais
Devidamente uniformizados, deram entrada no belo campo de lutas, os dois teams rivais do Botafogo e do Americano, às 4,17 da tarde, sob a direção de A. Borgerth. Todos os jogadores que se iam empenhar na magestosa luta, apresentavam-se bem dispostos e alegres. Cada um deles alimentando naturalmente as mais doces esperanças e prevendo para o seu querido clube os mais espressivos triunfos, não escondiam a infinita satisfação que lhe ia na alma, embora uma recôndita suspeita, um muito justificado receio pudesse dar-lhe leve sombra de tristeza, ante o feito moral despertado pela presença do terrível e leal adversário. Mantendo a mesma cordialidade de sempre, os jogadores não escondiam o seu intenso júbilo, a sua imensa satisfação pelo ensejo de se encontrarem à frente de um confrade benquisto e de um amigo verdadeiro. Tinham talvez a conciência de que cediam a um impulso mais nobre e mais honroso do que aquele que nascera na alma deshumana do presidente da Liga Paulista, ao impedir essa fraternidade que ontem eles prazenteiramente celebraram.
O Sport Clube Americano — Estava representado pela nata de seus jogadores, assim distribuídos em campo: Goal Hugo de Moraes. Backs: Itaborahy e Menezes. Halves Bertone, Bertone II e Monte. Forwards — J. Pedro, Alencar, Décio, : Juvenal e Eurico.
O Botafogo Foot-Ball Club puzera em campo também a fina flor de sua gente, conjunto harmonioso e homogêneo que não nos cansamos de admirar e aplaudir. Estavam assim dispostos: Goal Cesar Gonçalves. Backs: Villaça e Dutra. Halves Rolando, Lulu e Juca. Forwards Mário, Pedro Paulo Hasche, Mimi e Lauro.
O team apresenta-se, assim desfalcado Emmanuel, Baby e Abelardo que não puderam por motivos diversos, tomar parte no grande match. Os seus substitos portaram-se corajosamente, merecendo os aplausos a que fizeram jus.
Os footballers paulistas — Todos éstes senhores vieram no mesmo carro, cercados de todo o conforto e foram recebidos na estação da Estrada de Ferro, pelos Srs. Alfredo Chaves, presidente do Botafogo F. C.; Pedro Rocha, diretor de sports; Fernando Alexander, Eduardo Alexander, Gentil do Rego Monteiro, Anselmo Mascarenhas, Augusto Fontenelle e José Dolabella. Em seguida vieram em bondes especiais para o Hotel Metrópole onde repousaram até 11, 30, hora em que foi servido lauto almoço, tendo reinado em tôdas estas ocasiões a mais efusiante alegria. Logo depois sairam a passeio sendo acompanhados pelos cortezes e delicados sócios do Club Campeão do Rio, enquanto aguardavam a hora em que, se dirigiram para o campo do Largo dos Leões, local em que se realizou o emocionante match. A noite, foi servido um farto jantar, sendo saudado por um diretor do Botafogo, o club vencedor. Os footballers paulistas voltam hoje pelo noturno de 6 horas da tarde. Não podemos terminar a nossa noticia sem consignar os nossos agradecimentos pela maneira cavalheiresca com que fomos tratados pela fidalga diretoria do Botafogo F, C., assim como não podemos também deixar desapercebido o serviço correto de policiamento das arquibancadas feito por uma comissão do clube".
Notas - Como se vê da descrição, o valoroso S. C. Americano enfrentou tôdas as proibições da Liga Paulista para vir jogar com o Botafogo, o que confirma o que anteriormente relatáramos prova magnifica de apoio e de solidariedade ao nosso clube, então desligado da Metropolitana.
O 3º goal do Americano foi marcado pelo grande back Itaborahy, em um corner çontra o Botafogo. Aberto Borgerth arbitrou o jogo. A noticia transcrita indica-o como "ex-sócio do Fluminense" e o "Jornal do Comércio", como pertencendo ao C. R. Flamengo. Significa isso que acabára de se dar a cisão no Fluminense que redundou na criação da seção terrestre do Flamengo, outro fato importantíssimo, no agitado ano de 1911. "Jornal do Comércio", assim comentou a atuação do nosso quadro:-- "Seus jogadores ressentiam-se da falta de training e a defesa, em geral mal colocada, atacava mais do que os forwards, dando assim ocasião ao adversário para organizar diversas investidas, que não deram melhores resultados devido, talvez, falta de calma. No 2º half-time, da defesa só J. Couto não shootou a goal. Villaça mais parecia um forward, do qui um full-back". A Diretoria de 1941, que retirou o club da Liga, era a seguinte: Presidente -- Alberto Cruz Santos; 1º Vice -- Alfredo Chaves; 2º Vice Comandante Herman Palmeira; Secretário — Augusto Paranhos Fontenelle; Tesoureiro - Miguel Raphael de Pino; Diretor de Sports Pedro Rocha; Comissão de Foot-Ball - Rolando Delamare (cap.), Luiz Rocha, Anselmo Mascarenhas e Comandante Raul Tavares.
O centro médio J. C. Bertone, que foiu um dos maiores cracks da primeira fase do futebol uruguaio em cujo scratch figurou, de 1906 a 11, perto de 30 vezes radicou-se entre nós e, em 1918, jogador do São Bento, ainda figurava no scratch paulista. Terminou sua carreira como eficiente técnico, tendo sido o primeiro treinador profissional do Botafogo, durante duas temporadas: 1923 e 24, quando nosso diretor de futebol era o grande Lulu Rocha, seu adversário no encontro cuja descrição transcrevemos.
Alceu Mendes de Oliveira Castro.
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 88 de janeiro de 1950
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1906 A 1910 18º JOGO
BOTAFOGO x AMERICANO Data: 6 de Outubro de 1912 — Local: Rio — Resultado: Americano, 3x0.
Às 4 horas da tarde, chegaram ao field de São Cristovão, quasi a um só tempo, as equipes do S. C. Americano e do Botafogo F. Clube. Atuando como juiz, o Sr. Antônio Luiz dos Santos Werneck, chamou, em seguida, os jogadores às posições, estando os teams do seguinte modo organizados:
S. C. AMERICANO — Hugo; Meneas e Itaborahy; Bertone II, Bertone I e Sebastião; Irineu, Eurico, Octavio, Alencar e Mauricio,
BOTAFOGO F. C. — Alvaro; Dutra e Pullen; Rolando, Lulú e Juca; Villaça, Abelardo, Décio, Mimi e Lauro.
Eram 4 horas e 10 minutos, quando foi feita a saída pelo Americano, que logo perdeu a bola para os halfs contrários, que a devolveram a seus forwards. É Abel+ardo o primeiro da linha de ataque do Botafogo que se salienta, infelizmente sem resultado, porque a defesa paulista é forte e está vigilante. Volta a bola para o centro do campo, aonde, retornando-a a linha americana, organiza a primeira investida contra as barras dos cariocas, investida que se vae quebrar de encontro a Dutra, full-back do Botafogo. São, em seguida, os forwards do team preto e branco que avançam, mas, ainda uma vez, é rebatida, pela defesa contrária, a bola para o meio do campo. E assim, em ataques revezados, passam-se os primeiros momentos do jogo, até que o extrema-esquerda do Americano, apanha a bola pela ala, corre um pouco e shoota in-goal; a bola bate a um tempo na trave e na mão de Alvaro, e, sem que o goalkeeper do Botafogo tenha tempo de rebatê-la para o centro, ela vae ter aos pés de Irineu que, com fraco shoot marca o primeiro goal do dia. Dada nova saída, a linha do Botafogo organiza uma boa investida, em que combinam magnificamente Décio e Mimi. O primeiro, apanhando posição, dá formidável kick, a 25 jardas, passando a bola por cima da trave do goal. Posta de novo a bola para o meio do campo, por um back americano, e a mesma presa por Abelardo que driblando uma dos full-backs contrários, sae escapado: o outro back, porém comete o foul contra o meia-direita do Botafogo, foul que é punido pelo referee, tirado sem nenhum efeito. Em continuação, é ainda o Botafogo que ataca, em boa combinação de passes curtos, entre Décio e Abelardo. Ambos conseguem passar pelos full-backs paulistas e Abelardo shoota com violência, fazendo Hugo, goal-keeper americano, uma linda defesa; Décio, entretanto, ainda próximo do goal, dá grande kick, indo a bola bater em cheio sôbre o estômago de Hugo, o que o trouxe incomodado por alguns momentos. O Americano, vendo que o Botafogo organizava consecutivos avançados contra o seu goal, procura imitar-lhe, no que envida sérios esforços Mimi, procurando retomar a bola do center-half americano, cae, em dado momento, ferindo-se bastante num joelho. A linha de ataque dos paulistas combina e avança; o seu extrema-esquerda faz um bom passe a Alencar, que shoota sem perda de tempo contra goal do Botafogo. Alvaro defende, atirando a bola para fora da linha de penalty, caindo, porém! Eurico, nêste momento, aproveita o ensejo e marca o segundo goal, indefeso. Em seguida há mais alguns ataques revezados, de ambos os lados, muito se salientando os dois goal-keepers, até que o juiz apita, por estar terminado o primeiro half-time, com o resultado de: Americano, 2 goals x Botafogo, 0 goal. Durante 15 minutos descansaram os jogadores, após o que voltaram ao campo. É do Botafogo a saida, feita de modo admirável pelos forwards cariocas. Décio, puxando a linha, faz passe largo a Lauro que recebendo a bola, devolve-a com um belo centro. Abelardo recebe-a e shoota vigorosamente contra o goal adversário, mas, sem direção. Há um verdadeiro empenho no ataque do team alvi-negro que começa a dominar visivelmente. Segue-se um verdadeiro bate-bola na porta do goal americano, onde halves e backs paulistas trabalham extraordinariamente afim de evitar que a sua rêde seja vasada. Nêste momento, Abelardo, Décio e Mimi ficam á bica de abrir o score para o seu team, não o conseguindo porque Menezes, Itaborahy e Hugo nulificam os seus esforços. Muda-se, em seguida, a mesma cena para a porta do goal do Botafogo, onde a bola chega trazida pelos forwards paulistas para pôr em relevo os méritos de Alvaro que subsequentemente faz duas belas defesas. Voltando para o centro do campo é a bola conduzida pelos halves do Botafogo, enquanto a linha avança em perfeita igualdade; Lulú depois de driblar a um só tempo os dois irmãos Bertone, faz passe a Décio e êste a Villaça que, apanhando a bola, dá violento kick in-goal, mas sem direção. Nêste momento o jogo é completamente dominado pelo Botafogo, cuja linha de forwards não dá trégua à defesa contrária. Rolando, Lulú e Mimi redobram de esforços, enquanto Décio procura todo geito de fazer goal. Villaça, em poucos momentos, faz dois ou três centros perigosos e que são de grande precisão. A sorte, porém, faz com que mesmo na porta do goal a bola vá cair sempre aos pés de Menezes e de Itaborahy. Ainda assim, o ataque do Botafogo foi obrigar a defesa americana a dois cornes, em poucos momentos. O jogo torna-se depois movimentado e belo. Uma "cavação" estupenda é feita de lado a lado, até que uma combinação mais séria, contrária, a defesa do Botafogo mostra-se atenta e com três cornes seguidos evita que o seu goal seja vasado. Décio consegue fa-er ainda uma bela puxada da linha, bem auxiliado por Lulú e Mimi, até que nos proximidades do goal americano Mimi, mais uma vez, tenta abrir o score, sem resultado. Faltavam apenas três minutos para terminar a hora, quando Irineu, recebendo na cabeça um magnifico centro da es-uerda, vasa pela terceira e última vez o goal do Botafogo. Foi êste o único goal bonito marcado pelo valente eleven paulista. Pouco depois terminava o jogo, com o resultado seguinte : Americano, 3 goals x Botafogo, 0 goal. Durante o half-time, usando da palavra o Sr. Paulo Martins, secretário do Botafogo, ofereceu ao S . C. Americano, em nome do Presidente do Bota-ogo F. Club, uma linda taça de prata com significativa dédicatória. Agradeceu em nome do S. C. Americano, o Sr. Menezes, captain do team paulista. As palavras usadas pelos representantes dos dois clubs tiveram o cunho de uma grande afinidade esportiva e promessas da maior solidariedade. Abrilhantando a festa, foi presente a magnífica banda musical da Fábrica de Tecidos Botafogo, cuja estréa em público causou a melhor das impressões, já pelo gosto com que está uniformisada, já pelo escolhido repertório apresentado. No Grande Hotel, onde se hospedaram os players paulistas foi servido, ontem, à noite, um lauto banquete de quarenta talheres, sendo trocadas saudações cordialíssimas. A equipe do S. C . Americano só hoje pelo trem N. P. 1 regressa para São Paulo, devendo partir da gáre da Central, à 6 da tarde. Ao terminar estas noticias, enviamos os nossos parabens aos distintos moços do Botafogo F. Club, pelo fim altruístico a que destinaram a renda das entradas, que é em benefício da Sociedade São Vicente de Paula, da freguezia de São Cristovão.
NOTAS — A nota supra deixa-nos boquiabertos: o Botafogo, sem rendas, sem campo, quasi sem sócios, destinou a renda dêsse sensacional encontro aos pobres! Para êsse encontro, o Botafogo organizou um belo conjunto que, embora completamente destreinado, por fôrça das circunstâncias que atravessávamos, enfrentou bravamente o mais poderoso quadro do Brasil, que era certamente o do glorioso campeão paulista de 12-13. O arco foi novamente confiado ao seu primeiro defensor, o valoroso e benemérito Alvaro Werneck e, por falar em guardião, é interessante observar que, como se vê na fotografia, foi em 1912 que passaram êles a usar a camisa diferente das dos outros jogadores. Na linha de ataque, além de ter Villaça, que era também um excelente forward, atuando na extrema, jogaram Abelardo que, infelizmente, após o seu célebre incidente, desgostara-se do futebol e quasi não mais jogava e Décio, que em São Paulo, em 12, defendera o Mackenzie e que aqui estava de passagem. A taça do jogo foi oferecida pelo Dr. Joaquim Delamare, presidente do club e que muito trabalhou pelo seu reerguimento. Foi a última vez que Irineu Malta, o grande atacante amigo enfrentou o Botafogo, por isso julgamos interessante reproduzir os trechos abaixo da entrevista que êle concedeu anos mais tarde a Ralph de Palma, para "O Imparcial": "Jogador de ataque, especialisei-me nos arremates sõbre o arco, que são o lance supremo do futebol. Os críticos chegaram â conclusão que nessa especialidade caital poucos foram os atacantes que se me aproximaram. E citavam um único exemplo: Abelardo Delamare. Parece-me, porém, que os meus amigos da imprensa foram exagerados, pois, no meu tempo, atuaram Alencar, Mimi, Facchini e Juvenal, todos êles brilhantes arrematadores". "De jogadores cariocas que me hauvessem agradado, lembro-me dos irmãos Delamare (Abelardo e Rolando) e de Mimi, todos azes do famoso Botafogo de 1910. Quando, sobretudo, uma grande recordação de Rolando. Admirável half, aquele! Se tivesse morado no Rio teria jogado pelo Botafogo F. C., sociedade da minha simpatia". Ao mesmo Ralph de Palma, também declarou Pedro Bicudo, sôbre arremates: "Admiro também os goals rápidos, instantâneos, fulminantes. Décio foi uma fábrica dêles. Vi-o fazer um goal dêstes contra o Botafogo, cujas cores aliás, defendeu. Estava êle, então, além da linha do centro! ltaborahy, como Irineu, prefere entre os cariocas, Rolando, Abelardo e Mimi.
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 89 de fevereiro de 1950
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1906 A 1916 19º JOGO
19º jogo — Botafogo x Palmeiras — Data: 12 de Julho de 1914 - Local: Rio. — Resultado: Palmeiras, 1x0.
Foi assim descrito pelo "O Imparcial", jogo supra: "Pouco perderam aqueles que não tiveram a desdita de assistir ao embate entre as simpáticas equipes do Botafogo Foot-ball Club e da Associação Atlética Palmeiras, ontem levado a efeito no vasto gramado da rua General Severiano, que logrou para si uma concurrência bastante avultada.
O jogo foi péssimo. Em todo o caso, os players adversários bateram-se com denodo e fizeram, em certos momentos, com que das vastas arquibancadas explodissem salvas de palmas, que quasi sempre repercutiam em todos os lados do gramado. Por vézes o entusiasmo dos espectadores chegava ao delírio; era preciso que houvesse compensação. Os nossos irmãos da paulicéia só podem levar dos cariocas as mais agradáveis impressões. Tudo lhes têm sido facilitado e para atestar o adeantado gráo de cultura dos adeptos do association aqui no Rio, é bastante dizer que os seus entusiasticos aplausos não eram dirigidos únicamente aos players locais. Os rapazes do Palmeiras, mui justamente tam-ém partilharam dêles.
Há muito que os players do Botafogo não se batiam com os seus camaradas da. A. A. das Palmeiras. Ontem, eles reencetaram as pugnas esportivas, até então interrompidas. O primeiro encontro havido entre êles foi no ano de 1908, ocasião em que Mirai, cuja falta foi ontem extremamente sentida, teve o seu primeiro sucesso nas pugnas do foot-ball. O simpático forward, "qui c'est toujours mignon", foi pela imprensa unanime, classificado como um dos melhores elementos da equipe alvi-negra de então. Hoje, êle ocupa na linha de ataque o primeiro plano, podendo ser considerado, mesmo pondo-se em comparação com os estrangeiros aqui existentes, o melhor forward existente no Brasil.
Passemos a descrever o encontro de ontem. Tirada a sorte, esta foi favorável à equipe paulista, que dispoz-se a defender o triangulo que dá costas para a rua General Severiano. Deu saída o Botafogo, cujos players avançam, conseguindo sobrepujar um pouco ao adversário. Êste, entretanto, resiste tenazmente. Fontenelle dá in goal, um violento e lindo kick, que Rachou defende. Pouco depois, ainda cabe a Fontenelie mandar a esféra. ao triangulo adversário, mas Rachou está alerta e consegue mais uma vez, deter a trajetoria da mesma. Lulú também dá um formidável short, que tem pronta defesa. Parece, aos olhos de todos os espectadores, que o club local vai dominar energicamente o adversário e vencê-lo com certa facilidade. Mas as aparências enganam... O club paulista inverte e Xavier tem ocasião de marcar o único ponto do dia, fazendo com que a esfera se aninhe, quasi rasteira, no canto inferior do goal de Apio.
Dai por deante, o Botafogo atacou com impetuosidade, procurando desfazer a vantagem que sôbre si tinha adquirido o adversário. Dão-se alguns corners contra êste, ambos batidos sem resultado para o club local. Godinho deixa passar um penalty contra os players visitantes, talvez por não o ter visto. Octavio Egydio faz uma defesa brilhante, tirando a esfera quasi de dentro do goal, que achava-se indefeso. Burlamaqui perde a oportunidade de abrir o score para o seu team, tendo deante de si unicamente Rachou; pouco depois o mesmo se dá com Menezes, que foi infeliz em seu shoot. Lauro dá um kick que vae ter as mãos de Rachou. O Palmeiras inverte e registra-se um comer contra o Botafogo; apesar de bem batido, em coisa alguma importa. Os paulistas vão pouco a pouco reagindo e as investidas revezam-se impetuosamente. Sem fato algum digno de interêsse, Godinho deu por findo o primeiro halff-time, estando os adversários assim dispostos: Palmeira 1 x Botafogo 0. O segundo half-time, foi tudo menos jogo de foot-ball. Os players que se batiam estavam como que tontos, todos os seus shoots eram violentos e mal dirigidos, o que causava na assistência um certo mal estar, que degenerou num silêncio profundo. Ninguém se manifestava, todos calados. O jogo posto em pratica pelo club local, êste, então, foi péssimo, esteve mesmo abaixo da critica. A transformação que em seu ataque foi operada, longe de melhorá-lo, veio ainda mais prejudica-lo. Burlamaqui, com o seu jogo pessoal, atrazava-se, o mesmo fazendo a seus companheiros. Dada a saída pelos paulistas, êstes atacam incessantemente ao Botafogo, domiando-o durante alguns minutos; o desanimo ia se apoderando dos cariocas de tal fórma, que players como Rolando, Lulú, Dutra e Villaça furavam repetidas vêzes, fazendo perigar o goal que defendiam. Apio defende algumas bolas. São notados alguns hands contra o Palmeiras; Villaça bate-os todos, sem, entretanto, nada conseguir para sua equipe. Em todo o caso após quinze minutos de jogo, o Botafogo vai adquirindo terreno e consegue manter na porta do goal de Rachou um bombardeio, a que êste opõe a mais tenaz das resistências. O ataque local era indeciso; por vêzes levaram com a esfera a fazer uma série de passes, mesmo na proximidade do goal adversário, quando deviam shoota-la. Só assim poderiam ultrapassar as barras inimigas. O Palmeiras fazia lá um ou outro ataque espaçado. Houve uma ocasião em que a falta de chance dos cariocas fez com que êstes não conseguissem o seu ponto. Há uma verdadeira scrimage na porta do goal adversário; Rachou cai, mas no meio de uma confusão medonha, a esfera volta ao meio do campo, fortemente impulsionada. Os players locais voltam à carga, mas precipitadamente; Vieira bate dois corners, um dos quais é escorado por Menezes com uma cabeçada, que passa roçando a trave vertical do goal antagonista. A, linha paulista ataca e Villaça salva o goal do seu team pondo a esfèra para comer. Êste, batido, coisa alguma adeanta ao team do Palmeiras. Apio, desviando com o pé um shoot que foi enviado ao seu posto, comete um corner. Lincoln bate-o e manda a esfera out-side. Fontenelle dá um shoot in-goal, que é defendido pelo Rachou e, pouco depois, êste keeper corta um passe de Vieira que, pela colocação de Fontenelle redundaria fatalmente num goal. Este feito valeu-lhe aplausos. Dão-se alguns lances sem im-ortancia e o match termina, com a vitória do conjunto paulista pelo score de 1 goal a 0. Palmeiras, 1 goal x Botafogo, nihil.
Os teams oue se bateram obedeciam a seguinte organização:
PALMEIRAS — Rachou; Octavio Egydio e Paulo Pinto; Zecky, Lincoln e Renanlou; Piga, Xavier, Nazareth, Morelli e Gilberto. BOTAFOGO — Apio; Villaça e Dutra; Couto, Lulú e Rolando; Vieira, Menezes, Mario Fontenelle, Burlamaqui e Lauro.
No segundo half-time a sua linha jogou assim modificada: Burlamaqui, Vieira, Fontenelle, Menezes e Lauro. Foi um desastre essa sua nova constituição. Falemos sôbre os teams que ontem mediram fôrças. O Palmeiras é homogeneo, sendo mais forte que o que aqui se bateu com o Fluminense, aliás, coisa que por todos devia ser perfeitamente sabido, porquanto não viria absolutamente bater-se com um conjunto que já bateu o do Fluminense com um outro mais fraco do que foi por êste derrotado pelo elevado score de 7 goals a 2. Não admitimos que pensem ao contrário de nós, mesmo porque, assim sendo, demostrarão um espirito de muita infantilidade. O jogo do conjunto paulista não foi dos melhores mas esteve muito superior ao do adversário. Este nunca nos patenteou um jogo tão ruim como o de ontem. Todos foram demasiadamente infelizes e, entre êsses onze footballers, é uma coisa humanamente impossível dizer-se qual o que pior jogou. Villaça, Lulú e Rolando foram, justiça seja feita, os que mais cavaram no final do match, afim de ver se conseguiam, ao menos empatar. A "urucubaca" pegou-os. Uns dizem que foi o azar de Sidney, o que não acreditamos, pois "urubú quando está caipora"...
O referee, sr. Godinho, foi por vezes injusto nas suas decisões. Não queremos dizer com isso que êle fôsse partidário, pois sabemos perfeitamente quem é o distinto sportman que ora nos visita, mas atribuimos os seus erros a um estado de excitação das celulas nervosas que vibravam em vista do receio que êle tinha de cair no desagrado do nosso exigente público".
NOTAS — Já se transformara o ambiente esportivo, o que se nota da própria descrição transcrita, mais sincera, talvez, criticando o juiz e os quadros, ao contrário das descrições anteriores que enalteciam até os quadros derrotados por elevado score, como os do próprio Palmeiras, nos famosos 7 x 2 e 6 x 1. O panorama político também se transformara, pois que desde 1913 o Botafogo voltara airosamente à Liga Metropolitana. Em São Paulo, também em 13, dera-se a cisão, Paulistano, Palmeiras e Mackenzie haviam fundado a Associação Paulista de Esportes Atléticos que a Metropolitana passou a apoiar e que em 1914, com a entrada do São Bento e do Ypiranga, ofuscou a velha Liga Paulista, onde começava a surgir o valoroso Corintians, com Bianco Néco, Amilcar e Police, êste, mais tarde, nosso bravo defensor. O nosso quadro de 1914, contra o Palmeiras, esteve realmente em uma tarde negra, pois que fora dai brilhou, sendo o vice-campeão carioca, com uma derrota apenas e um único ponto abaixo do campeão Flamengo perante o qual manteve-se invicto (2x2 e 2x1). Em nosso ataque fizeram muita falta Mimi e Abelardo. O primeiro, substituído por José Leal Bularmaqui (irmão mais velho do campeão de 1930), estava no auge de seu extraordinário jogo, tendo sido o autor do goal da inesquecível vitória de 1x0 contra o Fluminense, goal formidável, obtido após driblar toda a defesa tricolor (21 de junho de 1914). Abelardo que, infelizmente já poucas vezes atuava, justamente em julho brilhou esplendidamente, pois no domingo anterior ao jogo contra o Palmeiras, marcara lindamente nossos dois goals no brilhante empate contra o Flamengo, quando o Botafogo apresentou êste terrivel quinteto: Vieira, Abelardo, Fontenelle, Mimi e Menezes. A 14, portanto dois dias após o jogo contra os paulistas, Abelardo fez parte do quadro que abateu o Paysandú por 3 x 0 e a 21 de julho, juntamente com seu irmão Rolando, figurou no scratch brasileiro que obteve a celebre vitória de 2 x0 sobre os famosos profissionais ingleses do Exeter-City, scratch que merece ser aqui relembrado pois que obteve uma das primeiras grandes vitórias do esporte nacional: Marcos; Pindaro e Nery; Lagreca, Rubens Saltes e Rolando, Osvaldo Gomes, Abelardo, Friedenreich, Osman e Formiga. Aliás, já em 1913, falando de grandes vitórias nacionais, Rolando, Mimi e Lauro haviam brilhado no selecionado carioca que a 21 de agôsto abatera por 2x1 o também terrivel quadro inglês do Corintians, selecionado que foi o seguinte: Robinson; Pindaro e Nery; Rolando, Mutz e Laurence; Osvaldo, Sidney, Welfare, Mimi e Lauro.
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 90 de março de 1950
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1906 A 1916 20º E 21º JOGOS
Mackenzie x Botafogo e Paulistano x Botafogo. — Datas: 2 e 3 de Maio de 1915. — Local: S. Paulo - Resultados: Mackenzie, 2x1 e Empate, 0x0.
Em começos da temporada de 1915, antes de iniciado o campeonato carioca, o Botafogo, com o seu quadro todo desfalcado excursionou a S. Paulo, onde não ia desde 1911, enfrentando em dois dias sucessivos, os fortes quadros da A. Mackenzie e do C. A. Paulistano, excursão assim descrita por "Jornal do Comércio"
O match contra o Mackenzie foi um belo torneio. Possuidor de uma equipe homogenea, onde se salientam as figuras de Zecchi e Osny, dois simpáticos sportsmen e cavalheiros distintos, o club alvi-negro, provi anel campeão paulista, enfrentou galhardamente o seu rival carioca, fazendo-o recuar ao primeiro momento. A linha de forwards atirou-se sôbre a defesa do Botafogo corno uma avalanche. Perigava o goal carioca a todo o instante. Mas uma investida segura do Botafogo transformou subitamente a sua ofensiva. Registrara-se um corner contra o Mackenzie. Batidos por Villaça, veio a bola ter aos pés de Juca, que não pôde dirigi-la em goal, porque havia um jogador do Mackenzie dificultando-lhe o arremesso. Juca, então, calmamente, passa-o a Jones, que marca o primeiro goal, ficando êsse score mantido durante todo o primeiro half: e mais metade do segundo, quando se registrou o primeiro ponto dos paulistas.
Cesar, que brilhara em magnificas defesas, achava-se, porém, nessa ocasião visivilmente contrariado. É que, contrastando com o cavalheirismo paulista, e esquecivel grupo de mal educados, dirigia-lhe gracejos pesados por detraz do goal. E foi tal o vexame que lhe impuzeram, que o goal-keeper carioca abandonou o seu posto para vir solicitar providências do Sr. Godinho, referee. Foi o desastre. Logo depois, mal havia Cesar retornado o seu posto, como uma bala, atravessando o campo, num shoot vigorosissimo, uma bola enviada por Zecchi, vasava o goal do Botafogo, onde o seu keeper havia chegado ao tempo junto de lhe fazer face, reassumindo assim em ocasião critica a sua posição, pois, deslocado, não pôde evitar que os paulistas marcassem o goal que veio desfazer o empate. Quasi depois findava o match com a vitória do Mackenzie pelo seara de 2x1.
No team carioca, todos se tendo portado bem, mesmo Vadinho, a quem a emoção toldara os primeiros shoots, salientou-se, entretanto, o seu goal-keeper Cesar, que se tinha revelado prematuramente um forte baluarte na defesa do Botafogo. Por esta ligeira cronica verifica-se que fatores externos ao valor do team influiram desastradamente sôbre o resultado do jogo que, felizmente, não podia ter deixado na fidalga sociedade paulista senão a boa impressão que se testemunhava nos entusiasticos aplausos da assistência.
Contra o Paulistano, apresenta-se o Botafogo sem o seu center-half da vespera, substituído, então, por Villaça. Estava assim o seu team constituído: Cesar; Carlitos e Dutra; Caldas, Villaça e Coió; M. Pinto, Aluizio, Jones, Menezes e Gagá. O ataque coube ao Botafogo, e dessa vez acentuou-se por tal maneira que não foi difícil prever, seria êle o primeiro a abrir o score. Rubens, porém, multiplicava-se. Ora auxiliava o ataque, ora a defesa. A assistência, já acostumada ao pavoroso kick do half paulistano, aguardava anciosa o ponto inaugural, marcado indefectivelmente de 30 jardas, pelo festejado foot-baller. Villaça, entretanto, vigiava-o; Carlitos e Dutra o espreitavam de longe, e Menezes, muitas vezes, burlou a proficiência do terrível campeão, passando por êle para chegar à frente do goal ambicionado.
Cesar, que ainda contra o Paulistano manteve o seu valor da vespera, defendendo uma formidável cabeçada, a três jardas, respondeu a um fortissimo shoot de Rubens, deixando a arquibancada perplexa e quasi desesperançada de ver infalível goal do primoroso footballer internacional.
Corria assim o tempo, sem que os adversários, conquistassem outras vantagens, além de vários corners que surgiam como último recurso, para encher de ancia uma assistência inteira. Apenas digno de registro, nesse match que se jogava com a máxima lisura, apezar da pouca experiência do referee, o Sr. Lagreca, visionário de offsides, ressalta a impetuosidade do ataque do Botafogo, cuja linha, organizada numa situação dificil, se atuava valentemente sabre seu valoroso rival, pondo o goal paulista em perigo. Não lograram, porem, os forwards cariocas marcar uma merecida vitória.
O Paulistano possue uma excelente defesa, definindo-se na presença de Rubens Salles e Orlando, um infatigável back. ]
Não fôsse a desvantagem provocada pela marcação sistemática de off-sides de jogador, hoje bania no Rio, por certo o desmentido que o Botafogo pôde oferecer aos seus prematuros juizes, seria mais palpitante. Nós, entretanto, não esqueceremos jamais o esforço que o valente club dispendeu em São Paulo, tendo partido daqui numa atmosfera de desconfiança e receio, para voltar esperançado ao encontro de seus rivais que são agora os incompreensíveis.
Na recepção feita aos sportsmen cariocas, entre os quais figurava o presidente da Liga Metropolitana, o Dr. Zamith, a máxima cordialidade presidiu tôdas essas manifestações de boa camaradagem, realizando-se dois banquetes no Hotel d'Oeste, nas noites de 2 e 3 de maio. Com a presença dos representantes da Associação Paulista, de vários sportsmen de clubs de S. Paulo e da imprensa, serviu-se variado "menu", sendo ao "desert", trocados varios brindes.
Os jogadores do Botafogo voltaram pelo 1º noturno de ante-ontem, em carro especial ligado ao trem da carreira, tendo feito magnifica viagem. Todos eles confessam-se gratissimos pelas gentilezas recebidas em S. Paulo e mesmo confundidos com o modo fidalgo com que foram tratados pelos sócios dos clubes da Associação Paulista.
Foram os seguintes os sportmen fluminenses que estiveram em São Paulo: Dr. Alvaro Zamith, presidente da Liga Metropolitana de Sports Atléticos; Joaquim de Souza Ribeiro e Dr. Augusto P. Fontenelle, presidente e secretário do Botafogo; Cesar Gonçalves, Carlos M. Rocha, Edgard Dutra, Tenente Carlos Villaça, José Couto, Jorge Martins, Octaviano Caldas, Mario Pinto, Luiz Menezes, Albert Jones, Aluizio Pinto, Edgard Pessoa, O. Pessoa, Hydarnés Widal e Gurgel Dantas. Estiveram hospedados no hotel d'Oeste, onde realizaram várias conferências e reuniões tendentes a solucionar a debatida questão da fusão da Liga com a Associação Paulista, motivo este que levou o Dr. Zamith a capital paulista. Em conversa que teve com os sportsmen fluminenses disse o Sr. Rubens Salles reconhecer no Mackenzie o provavel Campeão paulista dêste ano. Fez elogios ao jogo desenvolvido pelo clube carioca em ambos os matchs, mesmo levando em consideração o fato de achar-se a sua eleven desfalcada do extraordinário Mimi e haver jogado com elementos do segundo team".
NOTAS — De fato, o Glorioso desfalcado dos consagrados Rolando, Lulú e Miriti, com Villaça deslocado para médio e com Juca Pinto impossibilitado de enfrentar o Paulistano, brilhou com os seus bravos elementos do segundo quadro que, aliás, seriam os vencedores do torneio de 1915. Carlito Rocha, Caldas, o inesquecível Mário Pinto e o valoroso Vadinho, que fez a sua estréia. Carlito Rocha, então, o nosso grande Carlito, foi um revelação brilhante, como se vê desses topicos da imprensa paulista, sôbre o jogo contra o Mackenzie: — "Na defesa da sociedade fluminense, merece especial mensão o Sr. Carlos Rocha, que se portou admiravelmente. Na sua posição de center-halff, desfez quasi sempre, com muita habilidade, a boa combinação de forwards do team local. Estava em tôda a parte: quando o goal do Botafogo se achava em perigo, lá se se via êle a atrapalhar os seus contendores que a cada passou ameaçavam fazer pontos". — "As outras investidas fracassaram devido ao preciso trabalho de Carlos Rocha, que foi a alma da defesa carioca". Foi êste o quadro que enfrentou o Mackenzie: Cesar; -Carlito e Dutra; Villaça, J. Couto e Coió; Menezes, Aluizio, Jones, Vadinho e Gagá. No quadro do Mackenzie brilhou o grande zagueiro Osny Werner que, no ano seguinte, mudando-se para o Rio, passou a defender o Botafogo em cujas cores se integrou definitivamente.
—O primeiro ponto do Mackenzie foi marcado por Oscar de Almeida. O saudoso Rubens Salles, e a quem Luiz Menezes deu tanto trabalho, era considerado o primeiro jogador do Brasil, maximé após sua inesquecível façanha de 27 de setembro de 1914, quando em Buenos Aires, com o seu terrível tiro de quarenta jardas, venceu para o Brasil a primeira disputa da Copa Roca (1x0). Embora nele não figurassem alvi-negros, julgamos interessante relembrar o selecionado que deu essa grande vitória ao Brasil e que foi o seguinte: Marcos; Pindaro e Nery; Lagreca, Rubens e Pernambuco; Oswaldo Gomes, Bartolomeu, Milon, Friedenreich e Arnaldo. Essa vitória, juntamente com as obtidas sôbre os inglêses do Corintians e do Exeter-City, que relembramos no número anterior, constitue a maior façanha do nosso football passado. Lulú Rocha foi o emulo do extraordinário Rubens Salles, tendo dominado-o amplamente no celebre match da taça "Rio-São Paulo", oferecida pelo "Correio da Manhã" e realizado a 3 de outubro de 1915 no antigo campo do Fluminense; quando o selecionado carioca impoz sua maior vitória do passado ao paulista, sempre melhor treinado e organizado, os inesquecíveis 5x2, pontos de Menezes 2, Welfare 2 e Sidney 1, para os cariocas e de Formiga e Hopkins para os paulistas. Lulú Rocha, cuja inclusão no scratch fôra criticada pela imprensa, que já o considerava "passado", assombrou, tendo eclipsado o terrivel Rubens. Anos mais tarde, palestrando conosco no trem de Petrópolis, Lulú explicou-nos sua façanha, dizendo-nos que, sendo muito mais alto do que Rubens e percebendo que êste combinava matematicamente rasteiro com os médios de ala, em largas passadas, Lulú cortava-lhe os passes e ia para deante, tornando-se o dono da cancha. Foram êstes os selecionados que se defrontaram:
Cariocas — Marcos; Pindaro e Nery: Rolando, Lulú e Galo; Menezes, Sidney, Welfare, Mimi e Sylvio.
Paulistas — Casemiro; Morelli e Osny: Lagreca, Rubens e O. Egydio; Formiga, Demostenes, Nazareth, Mac Lean e Hopkins. Rolando, Lulú, Mimi e Menezes, quatro das maiores glorias do Botafogo, inscreveram seus nomes neste grandioso feito sendo que Luiz Menezes, então um garoto, impoz-se nesta tarde memorável, definitivamente, como um dos maiores atacantes brasileiros. Perfeito em qualquer posição do ataque, bastando considerar que no momento atuavam como centro avante de nosso quadro, jogador velozissimo, possuidor de violento tiro, mestre nos passes e driblings, Menezes marcou dois goals impressionantes, tendo aberto e fechado a contagem carioca.
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Junhgsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 91 de abril de 1950
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OS INTERESTADUAIS DE 1906 - 1916
22º jogo - Palmeiras x Botafogo. — Data: 22 de Agosto de 1915. Local: S. Paulo. Resultado: Botafogo, 2x1.
Esta grande vitória botafoguense, obtida sôbre o forte esquadrão que seria o campeão invicto de S. Paulo, em 1915, foi assim descrita pela "A Noticia": — "O Botafogo derrotou brilhantemente o Palmeiras pelo score de 2 a 1. Por nós termos chegado com atraso, devido à demora do correio, publicamos fora da secção respectiva a nossa correspondência de São Paulo: ---- O Velódromo apresentava anteontem um aspecto deslumbrante e uma animação fora do comum. Muito chic, todo embandeirado, as arquibancadas sem um lugar para uma mosca, repletas de tudo o que de mais fino há na elite paulista. Em redor da arena aglomerou-se uma multidão colossal de espectadores, os indefectiveis torcedores, que às vêzes, com os seus berros punham os próprios jogadores às tontas, e, diga-se de passagem, o Botafogo conta inúmeras simpatias entre nós.
Os que ante-ontem compareceram ao gramado da rua Constelação, poucas ocasiões terão de assistir a um tão magnifico encontro, como foi essa grande prova estadual. Os dois clubes desenvolveram um jôgo assombroso, seguro, cheio de precisão, e cada qual rivalisando em valor o adversário. Ainda mais, tanto os players do Botafogo, como os do Palmeiras, portaram-se com uma delicadeza bastante significativa.
Se a memoria não nos falha, analisando esse encontro, falamos o seguinte no nossa número de sábado: "Não sabemos ao certo se a equipe carioca se tem submetido a trainings, mas isso é mais que provável, tratando-se de um club do valor do Botafogo, que vai medir fórças com um adversário da qualidade do Palmeiras! Temos até um certo palpitesinho sôbre o desfecho dêsse match..." E o nosso palpitesinho venceu. O Botafogo alcançou a mais brilhante vitória que po-eria desejar; e alcançou-a de um modo completo, absoluto e muito honrosamente.
O Botafogo apresentou em campo um conjunto de 11 jogadores, muito capaz de enfrentar com vantagem qualquer team de S. Paulo ou Rio. Foi simplesmente admirável o jogo desenvolvido pela equipe carioca. A principal figura foi, incontestávelmente, o center-half, Lulu, que nessa posição joga mais do que três Rubens Salles juntos. Lulu jogou assombrosamente, tanto na defesa como no ataque, distribuindo passes de maneira estupenda, eficazmente auxiliado por Vil-aça e Coió. Rarissimas eram as ocasiões em que os forwards do Palmeiras conseguiram passar esse trio incomparável. Quando isso acontecia, iam esbarrar em Wigand e Dutra, segunda barreira do team. Na linha de ataque salientaram-se o magnifico Mimi, Menezes e Jones. Gagá e Aluizio também estiveram bons e cavaram a valer. O Palmeiras jogou como de costume, e isto é tudo. Atacou valentemente, defendeu-se o melhor que pôde, mas o osso desta vez era um tanto duro de roer, e depois... êste Botafogo tem sido fatal ao team da Floresta... De nada lhe valiam os ataques cerrados que levava a efeito de tempos á tempos. Onde a bola ia ter, la surgia na frente Lulú, que jogou de back, half e forward, interceptando de modo seguro os passes feitos pelo inimigo. O jôgo teve inicio com cargas impetuosas levadas a efeito pelo Botafogo, as quais punham às tontas os bravos rapazes do Palmeiras. Êsses ataques, que se sucediam sem cessar, tiveram logo completo êxito. Uns sete minutos depois de iniciado o jôgo, Menezes recebendo um ótimo passe de Jones e estando bem colocado, envia pavoroso shoot ao retângulo do Palmeiras, conseguindo vazá-lo sob estrepitosas aclamações do numeroso público. Rachou nem chegou a esbarrar na bola. Dai em diante o Palmeiras empregou titânicos esforços para anular essa vantagem, á que, deu ocasião a que Lulú, Villaça, Coló, Dutra e Wigand, mostrassem o seu valor. A linha carioca, por sua vez, punha em polvorosa a defesa contrária, tendo perdido boas ocasiões de aumentar o score. E o resto da primeira fase de tempo terminou sem que fôsse mareado qualquer outro ponto. A segunda fase, certamente, a mais empolgante do dia. O Palmeiras fez desesperados esforços para desfazer a vantagem adquirida pelos cariocas, e consegui-o sepois de 20 minutos. Em certa ocasião Barbosa, de posse da bola dá um centro alto. Breno apodera-se da mesma, e longe arrisca um kick, indo a esfera bater na trave superior e, dai, não sabemos como, resvalou no braço sie Hydarnés indo aninhar-se na réde. Esse feito foi furiosamente aplaudido pela enorme massa de espectadores e espectadoras, que se acotovelavam nas arquibancadas. No ar só se viam chapéus, bengalas, etc. Como resposta tôda a linha do Botafogo, eficazmente auxiliada pelos halves, inicia uma série de ataques maravilhosamente combinados, aos quais a defesa do Palmeiras é impotente para conter. Como conseqüência, uns dez minutos depois do feito de Breno, Jones recebendo um bom passe de Aluizio, corre velozmente com a bola, e da linha de corner desfere violento shoot. A bola bate no canto esquerdo do retângulo e vencendo a vigilância de Rachou, vai pela segunda vez aninhar-se na réde de adversário. E estavam os cariocas novamente com a vantagem e a vitória garantida, pois faltavam apenas quatro minutos para terminar o jôgo. Esse espaço de tempo decorreu sem novidade, terminando, portanto, o belíssimo match com o seguinte resultado: Botafogo, 2, goals, Palmeiras, 1 goal. Os teams apresentaram-se assim formados:
Palmeiras — Rachou; Lefevre e Merelli; Hugo, Octavio e Gilberto; Meirehe, Barbosa, Nazareth, Demostenes e Breno. Botafogo — Hydarnés; Wigand e Dutra; Villaça, Lulú e Coió, Jones, Aluizio. Menezes, Mimi e Gagá. O juiz, Sr. Hutchinson, jogou como um juiz de verdade e basta".
23.° jogo - Botafogo x Palmeiras — Data: 7 de Setembro de 1915. Local: Rio. Resultado: Palmeiras, 2x1.
Foi assim descrita a revanche do campeão paulista: "A entrada da representação paulista foi coroada com entusiasticos aplausos, que se repetiram quando a equipe se apresentou no campo, pronta para a luta, seguida do sr. Alberto Borgerth, juiz escolhido para presidi-la. O team do Palmeiras apresentou-se "an grand complet". Era o seguinte: Rachou; Morelli e Lefevre; Hugo, O. Egydio e Gilberto, Meireles, Demostenes, Nazareth, Breno e Ralo. Quanto ao Botafogo, estava desfalcado de C. Villaça que teve que partir para São Paulo. A equipe era, portanto esta: Hydarnés, Wigand e Dutra; Rolando, L. Rocha e J. Martins; Jones, Aluizio, Menezes, Benjamin e Pessoa. Antes de entrarmos na resumida descrição do desenrolar da partida, digamos alguma coisa sôbre as equipes e seus componentes. A do Palmeiras, que pela primeira vez nos visitava este ano, estando cercada de grande fama cá entre nós pelo excepcional papel que vem fazendo no campeonato de S. Paulo, revelou-se digna do conceito em que a temos. Possue uma defesa muito forte, homogênea, em que se salienta uma magnifica linha de halves. A atividade, vigilância e inteligência de jôgo que esta linha média demonstra é de se fazer notar. Já não nos queremos referir a O. Egydio, nosso velho conhecido, cujos predicados estão mais que comprovados, citaremos os seus dois outros companheiros, Hugo e Gilberto, jovens cujas aptidões para as suas posições de ala são extraordinárias. O ataque é também de primeira ordem. De ponta a ponta os que o compõem calham perfeitamente nas subdivisões que lhe são destinadas. Entretanto, Demostenes, se bem que ao lado de dois insides valiosos, é o guia das investidas e a primeira figura da linha. Revela-se de uma precisão invejável na distribuição das bolas e é incansável no ânimo que inou-te aos demais atacantes, escareando-os a todo o momento das acometidas, ajudando-os material e moralmente. Em conjunto, o grupo é harmônico e a coordenação que atesta trae o grande treino que deve possuir. Pratica o verdadeiro association, sem exibições pessoais, com o intuito constante de valorizar o conjunto e trabalhar por ele. Dão a parecer que se acham convitos de que é a A. A. das Palmeiras que joga e não cada um déle em sua posição para os olhos do público. Esta qualidade, que se apresenta à primeira analise, como crucial; é rarissima nas equipes do nosso campeonato. Ainda ontem a ofensiva do Botafogo foi regularmente prejudicada com a pratica do jôgo pessoal desenvolvida em seu núcleo, Aluizio, notadamente, excedeu-se em atos de tal natureza, pretendendo, sempre que se apossava da esfera, caminhar com ela até o goal contrário, esquecendo-se de que sua tarefa seria muito mais facilitada e não afetada em seu êxito, se êle reparasse nos seus companheiros bem colocados e com êle partilhasse. Passando ao nosso Botafogo, não nos é licito deixar de prestar, "In primo loco", uma fervorosa homenagem. Esse preito é dedicado a Benjamin Sodré a quem coube uma tarde de glória, digna de ser mencionada na vida esportiva do célebre — celebre na extensão da palavra jogador nacional. Manteve-se durante tôda a contenda de modo admirável, não tendo perdido um unico dos lances que durante ela intentou. Esteve realmente estupendo! Para O. Egydio foi um trabalho insano marcar o agil e imperturbável forward, ao passar por tôdas as brechas, a inventar saídas quando elas por acaso não existiam, puxando verdadeiramente os restantes atacantes. Revelou-se a alma das suas cores. — "Mimi está mesmo em ponto de bala...!" — disse-nos alguém ao lado, exprimindo pitorescamente a ação de Benjamin. O mais infeliz do ataque foi Pessoa. Ainda no segundo meio-tempo logrou reerguer-se um -pouco. No primeiro, porém, não acertou uma única passagem. As linhas de defesa portaram-se a contento. Não aguentaram ,no período final, os repetidos embates dos forwards anta-gônicos, evidenciando grande fadiga. Não mais nos deteremos sôbre o club carioca, por demais conhecido, senão para mencionar as brilhantes defesas de Hydarnés que salvou o seu goal de bem criticas situações. A partida começou às 4,06 hs. da tarde. Procedendo-lhe o toss, quer sorteado com a exigida solenidade, deu ganho de escolha ao Botafogo. Este se colocou do lado direito das arquibancadas. A saída é impelida pelos paulistas, os quais, no principio da pugna, achavam-se possuidores de natural ausência de calma. Por isto, os cariocas encontram a passagem livre para atirar-lhes bons ataques. Morelli mostra-se incerto nas rebatidas. Aos poucos, porém, os do Palmeiras se apossam de seu belo jôgo, até que o desenvolvem à vontade e equilibram o match. De lado a lado observam-se ligeiras investidas. Os ataques e contra-ataques se sucedem, mantendo os espectadores em constante interêsse. Repentinamente, depois de certos episódios capazes de fazer temer a ambos os participantes, a atenção geral é chamada para a área de goal do Botafogo. É que Rolando, num heading infeliz, ao envés de repelir a esfera, passou-a a retarguarda a Demostenes, que bem colocado, sozinho diante do keeper inimigo, perde a oportunidade favorável pretendendo exigir a direção do shoot e dirigindo-o rasteiro a pouca distância do poste direito. Escaparam os cariocas! ... Pouco depois, um lance surpreendente se desenrola. Jones escapa pela extrema-direita e estende um passe longo de meia altura a Benjamin. O inside corria sôbre o goal de Rachou e recebendo o passe encontrou-se em plena liberdade para fazer o goal. O keeper do Palmeira vai ao seu encontro. Benjamin com absoluta presença de espirito faz passar a bola por entre o derradeiro defensor, aninhando-a nas redes opostos. Estava marcado o goal do Botafogo. Formidáveis aplausos estrugem de tôdas as dependências do campo. O Palmeiras não esmoreceu com a aquisição contrária. Continuou a investida com denodo. A partida continuou equilibrada como até a alteração havida no score, e como aliás, se descurdou até o final Foi o jogo mais equilibrado a que se assistiu este ano no Rio. Os brilhantes ataques dos paulistas dos quais Nazareth não se aproveita, caindo a toda a hora, deviam ser, afinal, compensados. O Botafogo pratica vários corners obrigado pela pressão do Palmeiras. Rachou perpetra linda defesa de um shoot de Benjamin, quando faltavam três minutos para o termino do primeiro meio-tempo, há uma veloz avançada de Nazareth pelo centro. Dutra encontra-se isolado para fazer frente ao center e a Demostenes que corriam a poucos passos um do outro. Carrega o back, em supremo recurso, sôbre o center que se desfaz da bola passando-a à frente de Demostenes. De diminuta distância o inside atira um shoot indefensável. Estava obtido o goal do Palmeiras e ao mesmo tempo, o empate do encontro.
No segundo meio-tempo o jôgo continuaria equilibrado, a exemplo do precedente. Verifica-se desde logo linda defesa de Hydarnés de um shoot de Nazareth, produzido de menos de um metro.
Por -sua -vez, Rachou é obrigado a segurar um centro de Pessoa, que lhe foi cair sôbre o goal numa curva de grande diametro. A peleja prossegue insana e a ofensiva muda de campo tão a miudo que é dificil acompanhá-la. A vista não se detem sôbre nenhum deles. Os olhos se movimentam aos seus extremos horizontais, num vai-vem prodigioso. Em determInada emergência um possante kick de Egydio engana os espetadores, dando a parecer-lhes que um goal havia sido conquistado. Ha certa indecisão e dúvida que são logo desfeita por Hydarnés, colocando a esféra no lugar do goal-kick. Por seu lado, Menezes consegue dar um shoot formidável de grande distância, e cujos destino Deus sabe qual seria se não batesse na barra horizontal do goal do Palmeiras, ressaltando à liça. Quatro minutos apenas eram precisos para concluir a partida. O empate era , considerado mais que provável. Entretanto, assim não quiz a Providência. Nazareth, em vigoroso avance, estica um passe a Demostenes que, de um metro, alcança o goal visado, decidindo da emocionante luta. As 5,28 terminava o excelente encontro interestadual, deixando otimamente impressionados os que tiveram a ventura de assisti-lo."
NOTAS - É preciso esclarecer que J. Martins é Coió (Jorge Martins) e que Pessoa é Gagá (Edgard Pessoa) . Nos dois emocionantes encontros contra o Palmeiras o Botafogo apresentou-se desfalcado, da primeira vez de Rolando, e da segunda, de Villaça, sendo ambos substituídos pelo excelente zagueiro Wigand Joppert que formava com Garlito Rocha, a magnifica parelha de nosso segundo quadro campeão de 1915. No formidável team campeão do Palmeiras, ao lado dos consagrados veteranos Octavio Egydio, Lefevre e Rachou surgiram os novos que encheram de glórias o futebol paulista: Italo, Demostenes. Nazareth e Morelli.
Alceu Mendes de Oliveira Castro
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 92 de maio de 1950
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